segunda-feira, 2 de julho de 2012

FISIOLOGIA DA RETENÇÃO DE PLACENTA


Fisiologia da Retenção de Placenta

Este texto é parte da palestra apresentada por Milo C. Wiltbank, no X Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2006.

Inicialmente o texto vai parecer difícil, mas tenha paciência e perseverança para chegar até o final, você vai entender porque é tão importante controlar o estresse das vacas no período de transição.

            Introdução
            A retenção de membranas fetais após o parto é um problema descrito desde os primeiros textos sobre reprodução de bovinos. Strebel, por exemplo, publicou uma revisão em 1890 avaliando a ocorrência e tratamento da retenção de placenta (RP) em animais domésticos. O problema ainda hoje é bastante significativo em muitas propriedades. Estudos publicados sobre a incidência da retenção de placenta relatam valores de 3% a 39% dos partos (Joosten et al., 1987; Laven e Peters, 1996), mas esta taxa depende da definição de retenção de placenta. Uma análise mais completa do momento em que se caracteriza a retenção de placenta está apresentada na Tabela 1.

Tabela 1. Incidência de retenção de placenta (van Werven at al., 1992)
Duração da Retenção de Placenta (horas)
Porcentagem de retenção de Placenta por Ordem de Parição (%)
1 (n=277)
2 e 3 (n=394)
>3 (n=339)
Geral (n=1010)
>6
27
33
41
34
>8
16
26
30
25
>12
10
20
28
18
>23
8
17
18
15
>47
7
14
17
13
>71
7
14
14
12


            Como se pode perceber, 1010 vacas foram avaliadas neste estudo e 34% não haviam expulsado a placenta em 6 horas após o parto. Em outras palavras, 2/3 das vacas expulsaram a placenta em um período de até 6 horas. Em outros 15% das vacas, a retenção da placenta prolongou-se por mais de 1 dia (>23 horas). Se examinarmos o efeito do número de partos, percebemos que à medida que a vaca envelhece, apresenta maior tendência de retenção de placenta. Por exemplo, 28% das vacas mais velhas (mais de 3 lactações) retiveram a placenta >12horas. Entretanto, somente 10% das novilhas de primeira lactação retiveram a placenta por mais de 12 horas.
            A conclusão deste estudo é que a retenção de placenta pode incluir qualquer vaca que não expulse a placenta em até 6 horas após o parto. Um terço (1/3) das vacas pode ser incluída nesta categoria. Caso a definição de retenção de placenta seja ampliada para 24 horas, então 15% das vacas terão sido diagnosticadas com o problema e a incidência praticamente dobra em vacas mais velhas.
            O custo financeiro médio da retenção de placenta foi estimado em US$ 285 por evento (Kimura et al., 2002). Entretanto, este custo pode variar enormemente em vacas individuais, principalmente de acordo com o número de partos. No estudo de vanWerven et al. (1992), o desempenho reprodutivo de novilhas de primeira cria e o de vacas de segundo e terceiro partos não foi significativamente afetado pela duração da retenção de placenta. Em novilhas primíparas, não se observou nenhum ponto de corte em que o atraso da expulsão da placenta passasse a ter efeito prejudicial sobre qualquer das variáveis de produção ou reprodução medidas no estudo. Entretanto, vacas de quatro partos ou mais apresentaram o melhor desempenho reprodutivo quando expulsavam a placenta em até 6 horas. A retenção da placenta por período superior a 6 horas resultou em aumento de 17 dias até o primeiro serviço e 26 dias adicionais no período de serviço. Vacas mais velhas também produziram menos leite com maior duração da retenção. Tanto as vacas de segundo e terceiro partos quanto as de quatro partos ou mais apresentaram o melhor desempenho geral em todos os parâmetros testados quando as placentas eram expulsas em até 6 horas após o parto.
            Entre fazendas, existe alta variabilidade na incidência de RP. Algumas fazendas apresentam incidência de RP de apenas 1%, enquanto em outras pode chegar a 35%. Alguns estudos observaram alta incidência de RP com efeito dramático dos tratamentos em reduzir a incidência; outros estudos, entretanto, observaram baixa incidência e nenhum efeito dos tratamentos sobre a incidência de RP. Assim, a incidência e o impacto da RP são altamente variáveis. A idade da vaca e fatores específicos de cada fazenda são obviamente importantes para a manifestação da condição e para seu impacto sobre produção e reprodução.

            Causas e Prevenção da Retenção de Placenta:
            A placenta deve permanecer fortemente aderida ao útero materno para manter a troca de nutrientes e oxigênio necessários para uma gestação normal. Entretanto, as membranas fetais devem ser rapidamente liberadas no momento do parto para que ocorra uma expulsão normal. Obviamente, este processo de descolamento da placenta deve ser cuidadosamente controlado para permitir a manutenção de sua função até o momento adequado de sua expulsão.
            Foram identificados vários fatores de risco para a RP. Por exemplo: aborto, natimortos, partos gemelares, distocia, indução do parto, distúrbios metabólicos e curta duração da gestação foram associados à maior incidência de RP (Laven e Peters, 1996). Mesmo assim, somente um terço dos casos de RP estão associados a estes fatores de risco. Gestação e parto normal ainda podem estar associados a uma incidência surpreendentemente elevada de RP. Por exemplo, em um estudo de incidência geral de 6,6% de RP, as vacas que pariram normalmente e que não tinham nenhum outro problema de saúde identificado, ainda assim apresentaram uma incidência de 4,1% (Joosten et al., 1987; 1991). Desta forma, embora existam claros fatores de risco para a RP, muitos dos problemas com esta condição ocorrem em animais aparentemente fora dos grupos de risco.
            Alguns autores sugeriram que a falta de contratilidade uterina poderia ser a causa primária da RP. Entretanto, trabalhos recentes indicam que a contratilidade uterina, embora ligeiramente reduzida em vacas com RP, parece ser suficiente para a expulsão das membranas fetais. Dados recentes sugerem que a principal causa da RP pode ser a não degradação dos pontos de adesão entre carúncula-cotilédone e não a falta de contratilidade uterina (Lavern e Peters, 1996; Davies et al., 2004; Martins et al., 2004).
            Para procurar identificar possíveis causas da RP, serão discutidas 5 causas já bem caracterizadas do problema. O modelo apresentado poderá facilitar a compreensão destas causas da RP em base nas evidências disponível. Finalmente, este modelo será usado para explicar a RP em cada um destes casos e para a formulação de programas de prevenção.



            Cinco condições associadas à retenção de placenta:
Endocruzamento ou similaridade genética entre vaca e bezerro: Quando a vaca e seu bezerro apresentam compatibilidade ou identidade de MHC classe I (complexo principal de histocompatibilidade), existe uma alta probabilidade de RP (Joosten et al., 1991).

Indução de parto com prostaglandina F2a: Quando as vacas foram tratadas com PGF2a no dia 276 de gestação, o parto ocorreu precocemente (em 44 ± 2 horas após o tratamento, em comparação a 163 ± 30 horas em vacas controles). Entretanto, houve alta incidência de RP (86%) com tempo médio de retenção de 153 ± 25 horas (Rasmussen et al., 1996). Esta elevada taxa de RP não foi reduzida pela elevação das concentrações de E2 (50 mg de benzoato de estradiol).

Alto nível de estresse antes do parto: Vacas expostas a lotação excessiva, transporte ou outras formas de estresse têm maior probabilidade de apresentar incidência elevada de RP. Peters e Bosu (1987) demonstraram que o hormônio mais freqüentemente associado à RP era o cortisol, quando os níveis estavam elevados durante os 5 dias anteriores ao parto.

Indução do parto com dexametasona ou outros glicocorticóides de ação prolongada:  A indução do parto com dexametasona resulta em boa previsão do momento do nascimento (30-48 horas depois), mas resulta em taxa inaceitavelmente elevada de RP (50-90%).

Baixos níveis de selênio ou vitamina E: Em vacas com baixos níveis séricos de selênio ou vitamina E observa-se significativo aumento de RP (LeBlanc et al., 2004; Allison e Laven, 2000).


            Modelo de Expulsão Normal e Tardia da Placenta
            A Figura 1 mostra os eventos iniciais no processo de parto. O cortisol fetal é o primeiro fator desencadeante deste processo. Este aumento de cortisol provém da glândula adrenal fetal. A glândula adrenal fetal é estimulada pelo ACTH decorrente da maturação do hipotálamo fetal e do eixo do estresse próximo ao momento previsto para o parto. Neste processo, o cortisol fetal atinge um nível crítico ao redor de 30 horas antes do parto normal. Deve-se salientar que este aumento dos níveis séricos de cortisol é observado somente do lado da circulação fetal. Qualquer aumento do cortisol sérico do lado da circulação materna é devido à produção de cortisol pela glândula adrenal materna.
            Existe uma população de grandes granulócitos binucleados no trofoectoderma (lado fetal) da placenta que desempenha um papel crítico no processo de parto. Estas células produzem lactogênio placentário e glicoproteínas associadas à gestação. São responsáveis por 15-20% das células do trofoectoderma ovino e bovino durante a maior parte da gestação, mas ocorre uma queda dramática em seu número nos momentos que antecedem o parto, simultaneamente à elevação do cortisol fetal (Ward et al., 2002). A adrenalectomia fetal (retirada da adrenal do feto) inibe a migração normal e a redução do número de células binucleadas. Por outro lado, o tratamento do feto com cortisol exógeno antes do momento previsto para o parto causa a migração prematura das células binucleadas e redução de seu número (Wooding et al., 1986; Ward et al., 2002). Assim, o aumento do cortisol resulta em migração das células binucleadas do lado fetal da placenta para o lado materno. À medida que estas células migram e sofrem degranulação, ocorre um pico acentuado na concentração de lactogênio placentário e outras proteínas específicas da gestação. Estas células se fundem ao epitélio endometrial e expressam MHC classe I em sua superfície. Antes deste momento, praticamente não há expressão de MHC classe I nos placentomas bovinos e nas células do epitélio endometrial. A porção de vilos/criptas do placentoma é a área de adesão e troca de nutrientes. A expressão de MHC classe I nestas áreas é praticamente nula antes da migração e degranulação destas células binucleadas (Davies et al., 2000). Existe, entretanto, expressão de MHC classe I em outras regiões da placenta, como entre os placentomas. Os mecanismos que inibem a expressão de MHC classe I nas criptas placentárias até o momento do parto ainda não foram identificados, mas são provavelmente críticos para a expulsão da placenta no momento adequado.
            Gunnink, em 1984, foi o primeiro cientista a sugerir que a resposta imune inflamatória era responsável pela separação normal da placenta. Estes elegantes estudos demonstraram que os placentomas bovinos secretam um fator quimiotático que atrai leucócitos (potencialmente monócitos; Kimura et al., 2002). Além disso, os autores observaram que vacas com retenção de placenta produziam menos fator quimiotático e que os leucócitos de vacas com retenção de placenta eram muito menos responsivos a este fator placentário. Estudos mais recentes (Kimura et al., 2002), demonstraram que os neutrófilos provavelmente estão envolvidos com a rejeição imune da placenta e que vacas com RP apresentavam redução da função dos neutrófilos. Assim, vacas com RP apresentam menor função imune placentária, o que impede sua rejeição imune e provavelmente representa a causa da RP.

RESUMO: O SISTEMA IMUNE MATERNO ATACA A PLACENTA E REJEITA ESTE TECIDO, RESULTANDO NA DEGRADAÇÃO E EXPULSÃO DA MESMA.

            Como este modelo ajuda a explicar as cinco condições que causam a retenção de placenta:

Endocruzamento: Isto é bastante óbvio. Se as moléculas do MHC Classe I forem idênticas para mãe e bezerro, o sistema imune materno não irá reconhecer as células fetais como estranhas. Mesmo em casos em que a identidade não é completa, quanto maior a semelhança entre as moléculas do MHC Classe I da vaca e do bezerro, maior a probabilidade de RP. Isto é óbvio, pois o sistema imune da vaca não ataca a placenta para causar sua degradação e expulsão.

Indução do parto com PGF2a: Este aspecto também é bastante evidente. O tratamento com PGF2a antes do momento normal previsto para o parto leva à regressão do corpo lúteo. A regressão do corpo lúteo resulta em redução das concentrações de progesterona e inicia o trabalho de parto. Entretanto, o trabalho de parto não pode ser iniciado se não houver elevação dos níveis de cortisol na circulação fetal. Portanto, não haverá migração de células binucleadas para a circulação materna. A falta da migração impede a expressão de MHC Classe I nas criptas placentárias e o sistema imune materno não poderá rejeitar a placenta fetal no momento do parto. Em outras palavras, os estágios finais da maturação placentária não ocorrem devido à indução do parto com PGF2a sem a migração das células binucleadas.

Estresse: Esta parece ser uma causa importante de RP em muitos rebanhos leiteiros. Ainda assim, fica difícil explicar como o aumento do cortisol materno resulta em maior incidência de retenção de placenta. Obviamente, maior nível de estress eresulta em aumento do cortisol sérico, que é o marcador hormonal clássico de estresse. Altos níveis de cortisol inibem a resposta imune de forma significativa, o que impede a rejeição de transplantes de tecidos e medula óssea. Infelizmente, nesta situação, as altas concentrações de cortisol no lado materno da circulação atuam inibindo a rejeição da placenta pelo sistema imune materno. Assim, estresse com elevação significativa do cortisol durante a semana anterior ao parto inibe a rejeição da placenta, aumentando a freqüência de RP.
            O mecanismo descrito acima se baseia em lógica fisiológica, mas ainda não foi experimentalmente testado. Ainda assim, parece explicar o que tenho observado em casos de campo de RP. Fazendas leiteiras cujas vacas são expostas a altos níveis de estresse durante o período pré-parto imediato parecem ter maior probabilidade de alta taxa de RP. Veterinários que procuram reduzir a incidência de RP em fazendas leiteiras precisam avaliar a situação das vacas nos lotes de transição antes do parto. Em outras palavras, precisam identificar o nível de estresse a que as vacas são expostas na semana que antecede o parto. O veterinário deve avaliar a situação com a atenção voltada a possíveis fontes de estresse. O instinto das vacas é o de se esconder de pessoas e outros animais durante o trabalho de parto. Será que a vaca estará estressada quando se aproxima o parto? Seus níveis de cortisol são altos ou baixos? Uma mesma situação pode ser estressante para uma vaca (elevando seu cortisol), mas não ser percebida como fonte de stress por outra vaca.

Indução do parto com dexametasona: Pode parecer que a razão da RP neste caso seria a mesma que no caso da indução precoce com prostaglandina F2a. Entretanto, o caso não é o mesmo. O tratamento da vaca com uma injeção de dexametasona também eleva a concentração de dexametasona na circulação fetal, pois este hormônio atravessa rapidamente a placenta. Assim, é semelhante aos experimentos descritos acima, em que o feto foi tratado com cortisol, que induziu o parto prematuramente. Entretanto, como mencionado acima, o tratamento do feto com cortisol desencadeia a migração das células binucleadas da circulação fetal para a materna (Wooding et al., 1986; Ward et al., 2002), expondo o sistema imune materno aos antígenos que causam rejeição e expulsão normal da placenta. Infelizmente, a dexametasona também está presente em concentrações muito elevadas na circulação materna após injeção intramuscular. Sabe-se que estas altas concentrações inibem o sistema imune materno. Assim, a RP varia em vacas induzidas com dexametasona em comparação à indução com PGF2a. Com PGF2a, a indução precoce do parto sem migração das células binucleadas impede a rejeição imune materna da placenta, enquanto com dexametasona, as células binucleadas migram, mas o sistema imune materno está inibido pela alta concentração de glicocorticóide na circulação.
            Em base neste modelo tão claro, pareceria provável que pudéssemos desenvolver um método para induzir o parto de forma que ocorra em um período consistente, porém sem o problema da RP (CalfSynch). Infelizmente, ainda não foi possível. A indução da migração de células binucleadas sem inibição do sistema imune materno pode parecer simples, mas tem sido surpreendentemente difícil de obter na prática.

Baixos níveis de selênio ou vitamina E: Este problema nutricional pode claramente causar RP. Sabe-se que o selênio e a vitamina E são essenciais para a função adequada do sistema imune. Assim, qualquer deficiência nutricional que deprima a função imune poderia aumentar as taxas de RP através dos mecanismos acima discutidos.
            Recentes estudos indicaram que a suplementação de vitamina E em altos níveis (pelo menos 1000 UI ao dia) durante o período seco e início de lactação pode reduzir a incidência de mastite (Alison e Laven, 2000). Possivelmente, este efeito deve-se à maior atividade e função do sistema imune. Um estudo recente avaliou a relação entre os níveis séricos peri-parto de vitamina E com a RP e mastite clínica em início de lactação em mais de 1000 vacas leiteiras em lactação no Canadá (LeBlanc et al., 2004). Este estudo observou que para cada aumento de 1 µg/ml nos níveis de alfa-tocoferol circulante, houve uma redução de 20% na incidência da RP. Da mesma forma, vacas com baixos níveis pré-parto de alfa-tocoferol apresentaram maior probabilidade de ter mastite clínica durante os primeiros 30 dias de lactação.
            Em regiões em que o solo é deficiente em selênio, podem ocorrer altas taxas de RP. O selênio é armazenado principalmente em selenoaminoácidos. Desta forma, a suplementação de selênio inorgânico na dieta pode nem sempre fornecer níveis adequados nem resultar em elevação nas concentrações "fisiológicas" de selênio antes de atingir níveis tóxicos. A suplementação de vacas com selênio orgânico ou a fertilização de pastagens com selênio melhoraram o aporte de selênio a vacas leiteiras em lactação.
            Assim, este modelo fisiológico relativamente simples explica uma grande porcentagem dos casos de RP. Também constitui uma base lógica para a prevenção e tratamento da RP.

RESUMO: SE NÃO OCORRER A REJEIÇÃO IMUNE, PODERÁ HAVER RETENÇÃO DE PLACENTA.
NÍVEIS DE VITAMINA E OU SELÊNIO BAIXOS = DEPRESSÃO DA RESPOSTA IMUNE.
CORTISOL ELEVADO NA CIRCULAÇÃO MATERNA = BLOQUEIO DA RESPOSTA IMUNE.


            Tratamentos da retenção de placenta:
            Diversos estudos descreveram uma série de diferentes métodos de tratamento da RP. Ainda assim, nos parece que a prevenção é uma opção muito melhor para lidar com o problema. Muitas granjas apresentam incidência extremamente baixa de RP e, de acordo com o modelo acima, muitas das causas Da RP podem ser evitadas com sucesso.
            Um dos tratamentos mais comuns é a administração de prostaglandina F2a. Há pelo menos 14 diferentes estudos científicos publicados que avaliaram o efeito de diversos produtos de PGF2a sobre a retenção de placenta. Cerca de 50% destes estudos demonstraram algum nível de melhora, especialmente quando a PGF2a era administrada em momento próximo ao parto (consultar Peters e Laven, 1996 e referências em Drillich et al., 2006).
            Oxitocina e seus análogos também foram avaliados em muitos estudos sobre RP. A maioria destes estudos usou doses de 50-100 UI de oxitocina. Mais uma vez, 50% destes estudos demonstraram alguma melhora, principalmente com os análogos de oxitocina de longa duração ou múltiplos tratamentos com oxitocina (consultar Peters e Laven, 1996 e referências em Drillich et al., 2006).
            Vários estudos avaliaram o uso de antibióticos intra-uterinos e remoção manual da placenta, mas estas não parecem intervenções eficazes para o tratamento da RP. Por exemplo, um recente estudo dividiu um total de 501 vacas com RP em 4 grupos de tratamento: Referência (REF = Grupo controle; n = 131), tratamento com uma pílula intra-uterina de antibiótico (AP; n = 119), tratamento com remoção manual da placenta (MR; n = 121), ou pílula de antibiótico mais remoção manual (PR; n = 130). Todas as vacas neste estudo foram monitoradas para temperatura e caso esta se elevasse para > 39,5 °C (79,8% das vacas), elas eram tratadas com Ceftiofur (1 mg/kg peso corporal) por 3-5 dias consecutivos. As vacas foram avaliadas para muitas variáveis relacionadas à reprodução (dias até o primeiro serviço, taxa de concepção ao primeiro serviço, taxa total de concepção, dias até confirmação da prenhez, % de vacas prenhes aos 200 dias em lactação e % de vacas descartadas). Nenhuma destas variáveis foi significativamente afetada pelos tratamentos. 
            Com base em uma série de publicações recentes e mais antigas, a atual recomendação para o tratamento da RP é não usar antibiótico intra-uterino ou remoção manual da placenta. Entretanto, todas as vacas devem ser monitoradas e tratadas com antibióticos sistêmicos. Talvez seja o caso de tratar todas as vacas com RP com antibióticos, pois quase todas (~80%) desenvolvem febre. As vacas com febre e que foram tratadas com antibióticos sistêmicos apresentaram melhor resultado reprodutivo no estudo acima citado (Drillich et al., 2006), se comparadas a vacas com RP em que não foi detectada febre e que não foram tratadas com antibióticos. O experimento relata outros 2 resultados significativos. Primeiro, houve um efeito altamente significativo do rebanho sobre os resultados reprodutivos. Este foi muito mais importante que o efeito do tratamento (que não foi significativo). Além disso, houve um efeito significativo do número de partos e as vacas primíparas com RP apresentaram resultado reprodutivo muito melhor (independente do grupo de tratamento) que vacas mais velhas com RP. Isto é consistente com a discussão apresentada na primeira parte deste manuscrito, de que vacas com maior número de partos têm maior probabilidade de apresentar RP e que esta tenha conseqüências sobre a produção e a reprodução.

RESUMO: ATUAL RECOMENDAÇÃO PARA O TRATAMENTO DA RP:
  • NÃO USAR ANTIBIÓTICO INTRA-UTERINO.
  • NÃO REMOVER A PLACENTA MANUALMENTE.
  • TODAS AS VACAS DEVEM SER MONITORADAS E TRATADAS COM ANTIBIÓTICOS SISTÊMICOS SE APRESENNTAREM FEBRE.


Referências Bibliográficas
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DISCREPÂNCIA ENTRE METABOLISMO E FERTILIDADE


Priorização de Nutrientes em Vacas Leiteiras no Pós-Parto Imediato: Discrepância entre Metabolismo e Fertilidade? Parte-1

Este texto é parte da palestra apresentada por Joe Leroy, no XIII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2009.

Resumo
Cientistas de todo o mundo têm relatado há várias décadas a redução na fertilidade de vacas leiteiras de alta produção, provavelmente resultante do conflito entre as necessidades metabólicas e reprodutivas. O sucesso obtido com o aumento da produção de leite dos rebanhos foi acompanhado por tendências negativas dos parâmetros reprodutivos mais perceptíveis, tais como intervalo entre partos, número de dias abertos e número de inseminações por prenhez. Em paralelo, muitos grupos de pesquisa estudaram os fatores metabólicos e endócrinos que influenciam o crescimento folicular e a competência de ovócitos e embriões. No passado, especialistas em reprodução procuravam resolver estes problemas, porém com recursos limitados. Mais recentemente, a situação melhorou significativamente e nutricionistas e veterinários conduzem pesquisas em equipes multidisciplinares. Este trabalho de revisão discute inicialmente a priorização da utilização de nutrientes para o úbere para garantir a produção de leite e descreve as interações entre o eixo somatotrófico e gonadotrófico. Em seguida, discute as consequências do balanço energético negativo sobre o crescimento folicular e qualidade do ambiente do ovócito e do embrião, resumindo as hipóteses atualmente aceitas com base em evidências científicas em nível folicular. A discussão considera uma questão básica: a discrepância existente entre metabolismo e fertilidade e o que se pode fazer, em base nos dados científicos, para resolver o problema do baixo nível de fertilidade dos rebanhos leiteiros?

Introdução
O baixo desempenho reprodutivo em rebanhos leiteiros de alta produção é um problema global, caracterizado como multifatorial e que exigiu uma abordagem multidisciplinar, em que cientistas, veterinários e biólogos moleculares desvendaram em conjunto a complexa patogenia desta ‘síndrome da sub-fertilidade’. Afinal, a produção de um bezerro em intervalos regulares é considerada um pré-requisito para um desempenho rentável de lactação (Royal et al. 2000; Huirne et al. 2002). Depois do parto, o processo de emprenhar novamente nas vacas leiteiras é iniciado com a eliminação do conteúdo e posterior involução uterina, com retomada posterior da atividade ovariana. O resultado é o crescimento de um folículo saudável, contendo um ovócito competente, manifestação do estro, ovulação, fertilização e implantação de um embrião viável no útero. Qualquer distúrbio destes eventos biológicos e mecânicos balanceados e delicadamente sintonizados resulta em falha reprodutiva – exatamente o que tem acontecido com nossos modernos rebanhos leiteiros.

A síndrome da subfertilidade pode ser dividida em dois principais subproblemas. Em primeiro lugar, até 50% das modernas vacas leiteiras apresentam ciclos estrais pósparto anormais, resultando em intervalos prolongados entre parto e primeira inseminação (Opsomer et al. 1998). Neste contexto, as pesquisas se concentraram especialmente na instabilidade do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano–uterino (Lucy 2001; Butler 2003). A redução concomitante na expressão do estro ou até mesmo anestro, formação de cistos e atraso na primeira ovulação foram extensamente documentados (Beam e Butler 1997; de Vries e Veerkamp 2000; Lopez et al. 2004; Vanholder et al. 2006a). Em segundo lugar, deu-se atenção às baixíssimas taxas de concepção (Bousquet et al. 2004) e à crescente incidência de mortalidade embrionária precoce (Dunne et al. 1999; Mann e Lamming 2001; Bilodeau-Goeseels e Kastelic 2003). A fertilização dos ovócitos de vacas de alto mérito genético resulta em produções significativamente menores de blastocistos in vitro, independentemente do nível de produção de leite (Snijders et al. 2000). A qualidade dos embriões também é afetada em vacas leiteiras de alta produção, se comparadas a vacas que não estejam em lactação (Wiltbank et al. 2001; Leroy et al. 2005a). Vacas em lactação apresentam número muito mais elevado de embriões não viáveis se comparadas a vacas não lactantes (Sartori et al. 2002). Aproximadamente 70–80% do total de perdas embrionárias e fetais corre tipicamente durante o período embrionário precoce, pré-implantação (Santos et al. 2004a).

As vacas leiteiras modernas, embora subférteis, produzem enormes quantidades de leite, principalmente devido à combinação de melhoramento genético e manejo nutricional otimizado para a lactação. Em base na fertilidade de novilhas, mantida praticamente inalterada, podemos concluir que os processos reprodutivos das modernas vacas leiteiras são essencialmente normais quando não existem as demandas da lactação (Lucy 2007). Por que o organismo destas vacas dá prioridade para a produção de leite em detrimento da eficiência reprodutiva? Nesta revisão, procura-se responder a esta pergunta. O alto rendimento leiteiro e a boa fertilidade têm interesses conflitantes em termos metabólicos?

Da Priorização de Nutrientes Determinada Filogeneticamente à Geneticamente Influenciada: Consequências Metabólicas
Do ponto de vista biológico, faz sentido que os mamíferos favoreçam a lactação na fase inicial, em detrimento da fertilidade: a isto damos o nome de priorização de nutrientes (Lucy 2003). À medida que há escassez de disponibilidade de nutrientes, a fêmea em lactação investe preferencialmente estes recursos limitados na sobrevida de sua progênie, ao invés de apostar em um ovócito que ainda nem foi ovulado ou fertilizado e necessitará de cuidados durante toda a gestação. Este mecanismo de catabolismo materno, geneticamente programado, deve maximizar a probabilidade de sobrevida do recém-nascido (Silvia 2003). Ao longo dos últimos 40 anos, o foco da indústria de produção leiteira foi a maximização do rendimento leiteiro, criando uma ‘via expressa de nutrientes’ da dieta e reservas corporais (estimadas em 74% de gordura e 6% de proteína corporal: Tamminga et al. 1997) diretamente para o úbere para manter a produção de leite.

As necessidades de nutrientes do útero grávido em fase final de gestação fazem com que a vaca leiteira entre em estado catabólico. Depois do parto, ocorre uma demanda adicional por glicose, ácidos graxos e proteína quando se inicia a produção de leite. Durante este período de transição, as vacas são incapazes de compensar este aumento da demanda por energia através do aumento do consumo de ração e ocorre o balanço energético negativo (BEN). As concentrações de insulina drasticamente reduzidas resultam em mobilização de energia e distribuição para o úbere. A hipoinsulinemia promove a gliconeogênese no fígado (até 4 kg de glicose diariamente) e atua como potente gatilho lipolítico. Os ácidos graxos não esterificados (AGNEs) mobilizados atuam como fonte alternativa de energia para outros tecidos para poupar a glicose, preferencialmente utilizada pela glândula mamária para produzir lactose (Vernon 2002). Os AGNEs são predominantemente transportados para o fígado onde sofrem oxidação para fornecer energia ou são transformados em corpos cetônicos, para serem utilizados como fonte alternativa de energia em outros locais do organismo. Uma sobrecarga anormal do fígado por AGNEs pode induzir esteatose e alteração da função hepática (Herdt 2000). As lipases ativadas por hormônios do tecido adiposo de vacas leiteiras de alta produção têm maior sensibilidade a estímulos lipolíticos (tais como baixas concentrações de insulina e altos níveis de catecolaminas ou glicocorticóides). Em outras palavras, vacas leiteiras de alta produção foram geneticamente selecionadas para direcionarem uma fração ainda maior de suas reservas de energia para a produção de leite (Coffey et al. 2004). Desta forma, um nível mais elevado de ingestão de energia resulta em produção mais elevada de leite, mas com a manutenção do desequilíbrio energético, sem nenhum efeito benéfico sobre o escore de condição corporal (ECC) (Patton et al. 2006).

Uma série de mecanismos biológicos resulta em priorização dos nutrientes para a produção de leite em detrimento das reservas corporais no período do pósparto imediato. Em primeiro lugar, o úbere é beneficiado, pois não necessita de insulina para facilitar a captação de glicose nas células pelas moléculas de transporte de glicose, GLUT 1 e 3, enquanto a maior parte dos demais tecidos expressa predominantemente a GLUT 4, insulina-dependente (Zhao et al. 1996). Em segundo lugar, com o auxílio de testes intravenosos seriados de tolerância à glicose, observamos recentemente uma supressão temporária da função pancreática no período pósparto imediato de vacas leiteiras de alta produção e que foi correlacionada a elevadas contrações de AGNEs (Bossaert et al. 2007). In vitro, altos níveis de AGNEs têm efeitos tóxicos sobre as células pancreáticas (Cnop et al. 2001; Maedler et al. 2001). Em terceiro lugar, as baixas concentrações de insulina imediatamente após o parto inativam o eixo do hormônio do fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-I) no fígado devido à infrarregulação dos receptores 1A de GH – este mecanismo pode ser restaurado pela elevação das concentrações de insulina (Butler et al. 2003). À medida que a produção hepática de IGF-I é suprimida, o feedback negativo do IGF-I é removido no hipotálamo ⁄ hipófise e as concentrações de GH se elevam. Altas concentrações de GH não só estimulam a produção de leite como também ativam a gliconeogenêse hepática e a lipólise nos adipócitos. As altas concentrações séricas resultantes de AGNEs e GH antagonizam a ação da insulina e criam um estado mais intenso de resistência periférica à insulina (Lucy 2007; Pires et al. 2007). Desta forma, ainda mais glicose é preservada para estar disponível para a síntese de lactose.

Vacas mais gordas tendem a mobilizar mais gordura corporal devido ao apetite reduzido (Garnsworthy e Topps 1982). Aceita-se amplamente que a seleção genética para produção de leite resulta em maior perda de ECC, comprovando que há mais direcionamento de energia para o úbere (Roche et al. 2006). Uma perda excessiva de ECC durante o período de transição é um importante fator predisponente para distúrbios de fertilidade e problemas de saúde (Roche et al. 2007), o que enfatiza a importância do monitoramento do ECC no período pósparto imediato como ferramenta de manejo (Chagas et al. 2007).

Interações entre os Eixos Somatotrófico e Gonadotrófico
Extensas pesquisas científicas demonstraram que os mecanismos que regulam a distribuição de energia e nutrientes no sistema somatotrófico podem afetar o sistema reprodutivo em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano (Roche 2006; Chagas et al. 2007). No hipotálamo, as interações entre os sistemas gonadotrófico e somatotrófico podem ocorrer na área pré-óptica (Blache et al. 2006, 2007). Esta região produz os hormônios de liberação que controlam tanto a secreção de gonadotrofinas quanto de somatotrofinas (Kacsoh 2000). Além disso, desempenha um papel crítico na integração do apetite (Wynne et al. 2005), comportamento estral (Pfaff 2005) e a percepção do estado nutricional (Wade e Jones 2004). Consequentemente, as informações metabólicas no hipotálamo podem ter efeitos divergentes sobre os eixos gonadotrófico e somatotrófico, ou seja, o estímulo da produção de GH pode ser acompanhada pela inibição da secreção de GnRH (Zieba et al. 2005). Os hormônios ⁄ metabólitos que exercem função de sinalização são glicose e insulina. Baixos teores pósparto de insulina e glicemia reduzida suprimem a secreção hipotalâmica de GnRH e posterior liberação de LH pela hipófise (Diskin et al. 2003; Ohkura et al. 2004). Ao ativar neurônios específicos no pró-encéfalo, peptídeos tais como o neuropeptídeo Y e catecolaminas são liberados, suprimindo o gerador hipotalâmico de pulsos de GnRH (Ichimaru et al. 2001; Diskin et al. 2003; Wade e Jones 2004). Outros sinais metabólicos podem envolver leptina e AGNEs, embora seu papel ainda não tenha sido esclarecido (Liefers et al. 2003; Wade e Jones 2004; Amstalden et al. 2005).

No ovário desenvolvimento folicular parece ser diretamente influenciado por alterações de níveis de insulina, IGF-I, leptina e AGNEs. Como a insulina estimula localmente o crescimento e a maturação folicular e esteroidogênese, a redução das concentrações no período pósparto estão correlacionadas à disfunção ovariana (Gutierrez-Aguilar 1997; Landau et al. 2000; Armstrong et al. 2002a; Butler et al. 2004; Vanholder et al. 2005a; Kawashima et al. 2007). O tratamento de longo prazo com somatotropina bovina exógena claramente eleva o número de pequenos folículos (Bols et al. 1998). Gong (2002)  demonstrou que os efeitos benéficos da insulina sobre a função ovariana são independentes das variações de liberação de GnRH⁄LH. Nas células ovarianas, as GLUT-1 e GLUT-3 insulina-independentes são os principais transportadores de glicose, enquanto a GLUT-4 insulina-dependente somente desempenha um papel de suporte (Nishimoto et al. 2006). Desta forma, a insulina pode exercer seus efeitos através de outros mecanismos que não a mediação da captação de glicose.

Além da insulina, o sistema IGF também desempenha papel importante no crescimento e desenvolvimento folicular ao atuar diretamente sobre as células ovarianas (Spicer e Echternkamp 1995; Gutierrez-Aguilar 1997; Beam e Butler 1999; Webb et al. 1999; Gong 2002). Consequentemente, baixos níveis circulantes de IGF-1 influenciam negativamente a retomada da atividade ovariana pósparto e parecem estar envolvidos no desenvolvimento de folículos ovarianos císticos (Beam e Butler 1997; Kawashima et al. 2007; Ortega et al. 2007). Os efeitos da leptina sobre a esteroidogênese e proliferação celular são dependentes das concentrações séricas de IGF-1, LH e insulina (Spicer e Francisco 1997, 1998; Spicer et al. 2000).

No ovário os AGNEs podem afetar o crescimento e desenvolvimento folicular ao atuarem diretamente sobre as células do folículo. A adição in vitro de AGNEs em concentrações medidas no fluido folicular (FF) durante o BEN (balanço energético negativo) tem efeitos negativos sobre a viabilidade e função de células foliculares (Leroy et al. 2005b; Vanholder et al. 2005b, 2006b).

Em conclusão, as alterações metabólicas induzidas pelo sistema somatotrófico para sustentar altos níveis de rendimento leiteiro também afetam o sistema reprodutivo. Ao atuar em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano, níveis alterados de hormônios e metabólitos exercem efeito negativo sobre o crescimento e desenvolvimento de folículos e provavelmente sobre a ovulação.

Consequências para a Qualidade do Ovócito
Os pesquisadores supõem a existência de um efeito residual (carry-over effect) das condições metabólicas adversas durante o crescimento de folículos primários no período pósparto imediato sobre a saúde do folículo préovulatório, 2–3 meses depois (Britt 1992). Tais folículos podem ser menos capazes de produzir níveis adequados de estrógenos e progesterona (depois da ovulação) e podem estar destinados a conter um ovócito de qualidade inferior (Britt 1992; Roth et al. 2001a). A capacidade de desenvolvimento do ovócito está intimamente ligada à fase de crescimento e à saúde do folículo em desenvolvimento (Bilodeau-Goeseels e Panich 2002; Sutton et al. 2003; Lequarre et al. 2005). Finalmente, a composição da dieta também pode alterar o microambiente endócrino e metabólico do ovócito em desenvolvimento (Boland et al. 2001; McEvoy et al. 2001; Kenny et al. 2002).

Um ambiente endócrino alterado, devido ou em consequência de BEN pode alterar a qualidade do ovócito através de uma série de mecanismos, tais como atraso do crescimento folicular e da retomada da progressão da meiose, todos já objeto de revisões anteriores detalhadas (Leroy et al. 2007). Somente poucos estudos examinaram os efeitos possíveis sobre a qualidade do ovócito das baixas concentrações de glicose ou da elevação dos níveis de b-hidroxibutirato (b-OHB) ou AGNEs associados ao BEN. Além dos efeitos indiretos da hipoglicemia nas vacas recémparidas (através de um efeito sobre a secreção de LH ou responsividade ovariana às gonadotrofinas), as condições de hipoglicemia (como cetose clínica) se refletem no microambiente do ovócito préovulatório e podem comprometer sua capacidade de desenvolvimento, pois a glicose é uma molécula indispensável para uma maturação adequada do ovócito (Bilodeau-Goeseels 2006; consultar revisão de Sutton et al. 2003; Leroy et al. 2004, 2006). Kruip e Kemp (1999) sugeriram possíveis efeitos tóxicos diretos de altos níveis de AGNEs no ovario. Em um modelo da maturação in vitro, ácidos graxos de cadeia longa saturados reduziram as taxas de maturação, fertilização, clivagem e formação de blastocistos. Apoptose ou mesmo necrose das células do cúmulo ocorridas durante a maturação poderiam explicar estes efeitos (Leroy et al. 2005b). Finalmente, concentrações elevadas de amônia e uréia no FF, decorrentes de uma dieta desequilibrada e catabolismo de proteínas também se mostraram tóxicas para o ovócito (Sinclair et al. 2000; De Wit et al. 2001; Leroy et al. 2004).

Fase Inicial da Gestação em Vacas Leiteiras de Alta Produção: Qualidade do Embrião
A mortalidade embrionária precoce é a principal causa de falha reprodutiva em vacas de leite, representando até 80% das perdas totais de gestação (Santos et al. 2004a). Existem quatro principais fatores que afetam a qualidade do embrião no caso específico de vacas leiteiras de alta produção: qualidade dos gametas, qualidade do corpo lúteo combinada à concentração de progesterona circulante, involução uterina e nutrição. Entretanto, somente discutiremos os fatores relacionados ao BEN.

Condições préovulatórias adversas, como BEN, podem ter efeitos residuais (carry-over effects) sobre o metabolismo e viabilidade embrionária, resultando em mortalidade precoce (Yaakub et al. 1999; Lozano et al. 2003; Rhoads et al. 2006). Pode ser bastante difícil separar os efeitos do ovócito das influências pósfertilização sobre a qualidade do embrião. Somente embriões de pelo menos 6 dias de idade podem ser transferidos para receptoras para avaliar o impacto do ambiente uterino sobre a qualidade do embrião. Lucy (2007) defende a idéia de que a fertilidade pode ser melhorada em vacas leiteiras através da transferência de embriões, evitando assim os efeitos do período do ovócito e desenvolvimento embrionário precoce.

Concentrações bem sincronizadas e balanceadas de progesterona são vitais para a viabilidade do zigoto imediatamente após a fertilização, uma vez que a progesterona modula as secreções endometriais, otimizando a receptividade uterina (McEvoy et al. 1995). Já foi levantada a hipótese de que os resultados decepcionantes em termos de taxas de concepção e prenhez em vacas leiteiras modernas são parcialmente decorrentes do atraso para a elevação dos níveis de progesterona e concentrações subótimas de progesterona durante a fase lútea (Mann e Lamming 2001). Além disso, o típico BEN observado no período pósparto imediato pode reduzir o número de ciclos estrais ovulatórios que antecedem a IA, impedindo que ocorra uma preparação adequada do útero (Butler 2003). Villa-Godoy et al. (1988) demonstraram que vacas em BEN pósparto apresentavam concentrações mais baixas de progesterona durante os três primeiros ciclos após a parição. Apesar de maiores volumes de tecido luteal que em novilhas não lactantes, os níveis máximos de progesterona em vacas em lactação são inferiores, possivelmente devido a maior taxa de degradação hepática do hormônio (Sangsritavong et al. 2002; Sartori et al. 2004; Wiltbank et al. 2006).

A boa involução uterina pós-parto, com reparo do endométrio e esvaziamento de conteúdos contaminados por bactérias, é de fundamental importância para o desempenho reprodutivo (para revisão, ver Roche et al. 2006). Devido aos efeitos na supressão da resposta imunológica, BEN pode retardar dramaticamente este processo, comprometendo a fertilidade futura (Wathes et al. 2007).

Além do interesse nas consequências do BEN e desequilíbrios endócrinos e metabólicos associados, o foco também está sendo direcionado para o efeito das dietas que promovem alto rendimento leiteiro, ricas em energia e proteína (consultar revisão de Leroy et al. 2007). Estes estudos nos indicam que condições nutricionais ideais para crescimento folicular e ovulação não são compatíveis com a sobrevida embrionária e manutenção da prenhez (O’Callaghan e Boland 1999).

Finalmente, o estresse calórico pode levar à redução no consumo de matéria seca, prolongando o período em BEN, reduzindo as concentrações plasmáticas de insulina, glicose e IGF-I e promovendo a manutenção de altas concentrações de GH e AGNEs (Drew 1999; Butler 2001). Além disso, existe o efeito direto do estresse calórico sobre os níveis plasmáticos de FSH (elevação) e estradiol (redução) (Wolfenson et al. 1997; Wilson et al. 1998). O resultado é fraca expressão de estro e seleção tardia do folículo, o que potencialmente afeta negativamente a qualidade do ovócito (Roth et al. 2001a,b). Além disso, o estresse calórico pode elevar a temperatura uterina ao reduzir a irrigação sanguínea do útero. Estas alterações inibem o desenvolvimento embrionário (Rivera e Hansen 2001), promovem maior perda embrionária precoce e reduzem a porcentagem de inseminações bem sucedidas (Garcia-Ispierto et al. 2007). O impacto do efeito do calor é reduzido à medida que o embrião se desenvolve (Paula-Lopes et al. 2003).

Todos os fatores acima descritos, que potencialmente afetam a fertilidade, estão representados no diagrama da Figura 1.

Editar figura

Fig. 1. Interação entre seleção genética para produção de leite e fertilidade. A combinação das variações endócrinas e metabólicas para dar suporte à produção de leite com maior suscetibilidade ao estresse calórico, doenças e condições sub-ótimas de manejo tem efeito negativo sobre o desempenho reprodutivo da vaca leiteira de alta produção.

PRIORITIZAÇÃO DE NUTRIENTES :
Depleção geneticamente determinada das reservas corporais

Prioridade genética para características                                  
de produção de leite

Valor genético para
fertilidade


Maior suscetibilidade a:
Doenças metabólicas/infecciosas
Estresse calórico
Manejo subótimo:
Dieta
Alojamento
Tamanho de rebanho
Mão de obra por animal
Detecção de estro

FERTILIDADE
Eixo hipotalâmico-pituitário-ovariano
Qualidade de ovócito/embrião
Qualidade do corpo lúteo
Ambiente no folículo, oviduto, útero

ADAPTAÇÕES METABÓLICAS PARA ESTADO CATABÓLICO
BEN, perda de ECC, apetite reduzido
Baixos níveis de insulina, IGF-I, alto nível de GH
Baixo nível de leptina
Altos níveis de AGNEs, corpos cetônicos, uréia,
Baixa glicemia
Resistência periférica à insulina

Efeitos diretos ou residuais


Algumas Dicas para a Modificação do Eixo Somatotrófico para a Obtenção de Resultados Aceitáveis de Fertilidade

Atacar o problema multifatorial da subfertilidade em vacas leiteiras é um enorme desafio, uma vez que as alterações ‘no eixo somatotrófico’ acima descritas não são os únicos fatores para o declínio da fertilidade. Fatores de manejo, tipos de sistemas de produção, maior suscetibilidade a doenças, aumento do número de animais nos rebanhos leiteiros e baixa disponibilidade de mão de obra interferem com a capacidade de procriação da vaca leiteira (Mallard et al. 1998). Todos estes fatores devem ser cuidadosamente considerados quando se estabelece um plano de manejo, mas estão além do escopo deste trabalho.

Os distúrbios metabólicos (hipocalcemia, cetose e acidose) e doenças infecciosas durante o puerpério são fatores de risco que podem afetar a eficiência do desempenho reprodutivo (Grohn e Rajala-Schultz 2000; Santos et al. 2004b). Bom manejo de parição e cuidadosa observação do estado de saúde da vaca na fase de pósparto imediato são vitais para evitar reduções muito drásticas do apetite do animal. Determinações precisas e repetidas do ECC para estimar a variação nas reservas corporais são fundamentais. Para minimizar as variações de ECC e evitar a ‘exaustão das reservas de energia’ logo após o parto é necessária uma estratégia nutricional ideal, com redução do consumo de energia durante as primeiras semanas do período seco seguida de maior fornecimento de energia (carboidratos) logo antes do parto (consultar revisão de Overton e Waldron 2004). Entretanto, ainda há discussão quanto ao real benefício obtido com a energia adicional préparto sobre o balanço energético pósparto (Grummer 2007). Além disso, modulação adequada da energia da dieta durante o período pósparto imediato parece uma abordagem promissora, embora difícil (Grummer 2007). Van Knegsel et al. (2007a) compararam os efeitos de uma dieta isocalórica e isonitrogenada, uma dieta basicamente glicogênica (amido by-pass) ou uma dieta basicamente lipogênica (polpa de beterraba, MEGALAC e óleo de palma) e demonstraram que a dieta glicogênica (ou ‘insulinogênica’) estimula o direcionamento de energia principalmente para as reservas corporais em fase inicial de lactação. As vacas alimentadas com a dieta glicogênica apresentaram menor BEN e menor mobilização de gordura corporal, que resultou em depressão dos teores de gordura do leite e menor direcionamento de energia para o leite (Van Knegsel et al. 2007a). Em um estudo complementar (Van Knegsel et al. 2007b), vacas multíparas alimentadas com a dieta glicogênica também apresentaram concentrações plasmáticas de insulina mais elevadas e tenderam a retomar mais precocemente a atividade ovariana (20,4 ± 2,1 dias) se comparadas a vacas alimentadas com a dieta mais lipogênica (26,1 ± 2,1 dias).

Acredita-se que alterações de manejo tem grande probabilidade de ter efeito positivo sobre o balanço energético. O encurtamento ou mesmo eliminação do período seco melhora o consumo de material seca no periparto, reduz a produção de leite na fase inicial da lactação, melhora o balanço energético e reduz o número de dias pósparto até a retomada da atividade ovariana (Gumen et al. 2005; Rastani et al. 2005).

Além disso, mais atenção tem sido dada ao teor de ácidos graxos na dieta e à composição da suplementação de gorduras by-pass durante o período pósparto imediato. Não quanto ao efeito sobre o balanço energético em si, mas à melhora da secreção de esteróides e alteração do perfil de ácidos graxos (mais ácidos graxos w-3 poliinsaturados), resultando em modificação do metabolismo de prostaglandinas (Thatcher et al. 2006). A supressão da síntese da gordura do leite através da suplementação de ácidos linolênicos conjugados protegidos da ação ruminal (trans-10, cis-12) já foi sugerida como meio de restringir a perda de energia através do leite (Castaneda-Gutierrez et al. 2005). Ainda assim, apesar de vários artigos recentes bastante interessantes, os resultados sobre o balanço de energia e fertilidade são contraditórios. Overton e Waldron (2004) redigiram uma descrição extensa e clara das estratégias nutricionais para o suporte das demandas metabólicas durante o período de transição e estão além do escopo do presente artigo.

Finalmente, os programas de seleção genética de vacas leiteiras sempre enfatizaram as características de produção de leite via mobilização das reservas corporais. Esta perda de ECC não só depende da massa disponível de tecido adiposo, como também de ponto geneticamente determinado de ECC. Este ponto está correlacionado com o resultado reprodutivo (Lucy 2007). Desta forma, os critérios de seleção genética deveriam também incluir variáveis referentes às variações de ECC após o parto, além das características de fertilidade (Royal et al. 2000).

Conclusões
Em vacas leiteiras de alta produção, a intensa seleção para produção de leite resultou em prioridade de direcionamento de energia para o leite, em detrimento das reservas corporais, resultando em BEN prolongado e acentuado e piora do desempenho reprodutivo. Desta forma, produção de leite e desempenho reprodutivo tem interesses conflitantes em vacas leiteiras de alta produção. Metabólitos e hormônios metabólicos associados ao direcionamento prioritário de energia para a produção de leite (AGNEs, insulina, glicose, IGF-1, b-OH) influenciam a fertilidade, tanto indiretamente através da modulação do eixo somatotrófico ⁄gonadotrófico, assim como diretamente no ovário, folículo ou ambiente uterino. Os distúrbios da fertilidade pósparto podem ser evitados através de acompanhamento cuidadoso no período periparto para o monitoramento do estado de saúde da vaca e a perda de ECC e tratamento direto de distúrbios (infecciosos ou metabólicos) em início de lactação. Além disso, uma série de novas e promissoras estratégias nutricionais, de manejo e de seleção genética foi proposta, que tem o potencial de desviar o foco do eixo somatotrófico que prioriza o direcionamento de energia para o leite para o eixo somatotrófico, que prioriza as reservas corporais para melhorar a fertilidade. As pesquisas nesta área ainda são limitadas e devem explorar tais estratégias, comparando seus benefícios ou até mesmo combinando duas ou mais estratégias, o que seria essencial para a melhora da sanidade e bem estar da moderna vaca leiteira.

Referências

(ver no original)
Parte-2

Este texto é parte da palestra apresentada por Joe Leroy, no XIII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2009.

Interações entre os Eixos Somatotrófico e Gonadotrófico
Extensas pesquisas científicas demonstraram que os mecanismos que regulam a distribuição de energia e nutrientes no sistema somatotrófico podem afetar o sistema reprodutivo em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano (Roche 2006; Chagas et al. 2007). No hipotálamo, as interações entre os sistemas gonadotrófico e somatotrófico podem ocorrer na área pré-óptica (Blache et al. 2006, 2007). Esta região produz os hormônios de liberação que controlam tanto a secreção de gonadotrofinas quanto de somatotrofinas (Kacsoh 2000). Além disso, desempenha um papel crítico na integração do apetite (Wynne et al. 2005), comportamento estral (Pfaff 2005) e a percepção do estado nutricional (Wade e Jones 2004). Consequentemente, as informações metabólicas no hipotálamo podem ter efeitos divergentes sobre os eixos gonadotrófico e somatotrófico, ou seja, o estímulo da produção de GH pode ser acompanhada pela inibição da secreção de GnRH (Zieba et al. 2005). Os hormônios metabólitos que exercem função de sinalização são glicose e insulina. Baixos teores pósparto de insulina e glicemia reduzida suprimem a secreção hipotalâmica de GnRH e posterior liberação de LH pela hipófise (Diskin et al. 2003; Ohkura et al. 2004). Ao ativar neurônios específicos no pró-encéfalo, peptídeos tais como o neuropeptídeo Y e catecolaminas são liberados, suprimindo o gerador hipotalâmico de pulsos de GnRH (Ichimaru et al. 2001; Diskin et al. 2003; Wade e Jones 2004). Outros sinais metabólicos podem envolver leptina e AGNEs, embora seu papel ainda não tenha sido esclarecido (Liefers et al. 2003; Wade e Jones 2004; Amstalden et al. 2005).

No ovário desenvolvimento folicular parece ser diretamente influenciado por alterações de níveis de insulina, IGF-I, leptina e AGNEs. Como a insulina estimula localmente o crescimento e a maturação folicular e esteroidogênese, a redução das concentrações no período pósparto estão correlacionadas à disfunção ovariana (Gutierrez-Aguilar 1997; Landau et al. 2000; Armstrong et al. 2002a; Butler et al. 2004; Vanholder et al. 2005a; Kawashima et al. 2007). O tratamento de longo prazo com somatotropina bovina exógena claramente eleva o número de pequenos folículos (Bols et al. 1998). Gong (2002) demonstrou que os efeitos benéficos da insulina sobre a função ovariana são independentes das variações de liberação de GnRH⁄LH. Nas células ovarianas, as GLUT-1 e GLUT-3 insulina-independentes são os principais transportadores de glicose, enquanto a GLUT-4 insulina-dependente somente desempenha um papel de suporte (Nishimoto et al. 2006). Desta forma, a insulina pode exercer seus efeitos através de outros mecanismos que não a mediação da captação de glicose.

Além da insulina, o sistema IGF também desempenha papel importante no crescimento e desenvolvimento folicular ao atuar diretamente sobre as células ovarianas (Spicer e Echternkamp 1995; Gutierrez-Aguilar 1997; Beam e Butler 1999; Webb et al. 1999; Gong 2002). Consequentemente, baixos níveis circulantes de IGF-1 influenciam negativamente a retomada da atividade ovariana pósparto e parecem estar envolvidos no desenvolvimento de folículos ovarianos císticos (Beam e Butler 1997; Kawashima et al. 2007; Ortega et al. 2007). Os efeitos da leptina sobre a esteroidogênese e proliferação celular são dependentes das concentrações séricas de IGF-1, LH e insulina (Spicer e Francisco 1997, 1998; Spicer et al. 2000).

No ovário os AGNEs podem afetar o crescimento e desenvolvimento folicular ao atuarem diretamente sobre as células do folículo. A adição in vitro de AGNEs em concentrações medidas no fluido folicular (FF) durante o BEN (balanço energético negativo) tem efeitos negativos sobre a viabilidade e função de células foliculares (Leroy et al. 2005b; Vanholder et al. 2005b, 2006b).

Em conclusão, as alterações metabólicas induzidas pelo sistema somatotrófico para sustentar altos níveis de rendimento leiteiro também afetam o sistema reprodutivo. Ao atuar em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano, níveis alterados de hormônios e metabólitos exercem efeito negativo sobre o crescimento e desenvolvimento de folículos e provavelmente sobre a ovulação.

Consequências para a Qualidade do Ovócito
Os pesquisadores supõem a existência de um efeito residual (carry-over effect) das condições metabólicas adversas durante o crescimento de folículos primários no período pósparto imediato sobre a saúde do folículo préovulatório, 2–3 meses depois (Britt 1992). Tais folículos podem ser menos capazes de produzir níveis adequados de estrógenos e progesterona (depois da ovulação) e podem estar destinados a conter um ovócito de qualidade inferior (Britt 1992; Roth et al. 2001a). A capacidade de desenvolvimento do ovócito está intimamente ligada à fase de crescimento e à saúde do folículo em desenvolvimento (Bilodeau-Goeseels e Panich 2002; Sutton et al. 2003; Lequarre et al. 2005). Finalmente, a composição da dieta também pode alterar o microambiente endócrino e metabólico do ovócito em desenvolvimento (Boland et al. 2001; McEvoy et al. 2001; Kenny et al. 2002).

Um ambiente endócrino alterado, devido ou em consequência de BEN pode alterar a qualidade do ovócito através de uma série de mecanismos, tais como atraso do crescimento folicular e da retomada da progressão da meiose, todos já objeto de revisões anteriores detalhadas (Leroy et al. 2007). Somente poucos estudos examinaram os efeitos possíveis sobre a qualidade do ovócito das baixas concentrações de glicose ou da elevação dos níveis de b-hidroxibutirato (b-OHB) ou AGNEs associados ao BEN. Além dos efeitos indiretos da hipoglicemia nas vacas recémparidas (através de um efeito sobre a secreção de LH ou responsividade ovariana às gonadotrofinas), as condições de hipoglicemia (como cetose clínica) se refletem no microambiente do ovócito préovulatório e podem comprometer sua capacidade de desenvolvimento, pois a glicose é uma molécula indispensável para uma maturação adequada do ovócito (Bilodeau-Goeseels 2006; consultar revisão de Sutton et al. 2003; Leroy et al. 2004, 2006). Kruip e Kemp (1999) sugeriram possíveis efeitos tóxicos diretos de altos níveis de AGNEs no ovario. Em um modelo da maturação in vitro, ácidos graxos de cadeia longa saturados reduziram as taxas de maturação, fertilização, clivagem e formação de blastocistos. Apoptose ou mesmo necrose das células do cúmulo ocorridas durante a maturação poderiam explicar estes efeitos (Leroy et al. 2005b). Finalmente, concentrações elevadas de amônia e uréia no fluido folicular, decorrentes de uma dieta desequilibrada e catabolismo de proteínas também se mostraram tóxicas para o ovócito (Sinclair et al. 2000; De Wit et al. 2001; Leroy et al. 2004).

Fase Inicial da Gestação em Vacas Leiteiras de Alta Produção: Qualidade do Embrião
A mortalidade embrionária precoce é a principal causa de falha reprodutiva em vacas de leite, representando até 80% das perdas totais de gestação (Santos et al. 2004a). Existem quatro principais fatores que afetam a qualidade do embrião no caso específico de vacas leiteiras de alta produção: qualidade dos gametas, qualidade do corpo lúteo combinada à concentração de progesterona circulante, involução uterina e nutrição. Entretanto, somente discutiremos os fatores relacionados ao BEN.

Condições préovulatórias adversas, como BEN, podem ter efeitos residuais (carry-over effects) sobre o metabolismo e viabilidade embrionária, resultando em mortalidade precoce (Yaakub et al. 1999; Lozano et al. 2003; Rhoads et al. 2006). Pode ser bastante difícil separar os efeitos do ovócito das influências pósfertilização sobre a qualidade do embrião. Somente embriões de pelo menos 6 dias de idade podem ser transferidos para receptoras para avaliar o impacto do ambiente uterino sobre a qualidade do embrião. Lucy (2007) defende a idéia de que a fertilidade pode ser melhorada em vacas leiteiras através da transferência de embriões, evitando assim os efeitos do período do ovócito e desenvolvimento embrionário precoce.

Concentrações bem sincronizadas e balanceadas de progesterona são vitais para a viabilidade do zigoto imediatamente após a fertilização, uma vez que a progesterona modula as secreções endometriais, otimizando a receptividade uterina (McEvoy et al. 1995). Já foi levantada a hipótese de que os resultados decepcionantes em termos de taxas de concepção e prenhez em vacas leiteiras modernas são parcialmente decorrentes do atraso para a elevação dos níveis de progesterona e concentrações subótimas de progesterona durante a fase lútea (Mann e Lamming 2001). Além disso, o típico BEN observado no período pósparto imediato pode reduzir o número de ciclos estrais ovulatórios que antecedem a IA, impedindo que ocorra uma preparação adequada do útero (Butler 2003). Villa-Godoy et al. (1988) demonstraram que vacas em BEN pósparto apresentavam concentrações mais baixas de progesterona durante os três primeiros ciclos após a parição. Apesar de maiores volumes de tecido luteal que em novilhas não lactantes, os níveis máximos de progesterona em vacas em lactação são inferiores, possivelmente devido a maior taxa de degradação hepática do hormônio (Sangsritavong et al. 2002; Sartori et al. 2004; Wiltbank et al. 2006).

A boa involução uterina pós-parto, com reparo do endométrio e esvaziamento de conteúdos contaminados por bactérias, é de fundamental importância para o desempenho reprodutivo (Roche et al. 2006). Devido aos efeitos na supressão da resposta imunológica, BEN pode retardar dramaticamente este processo, comprometendo a fertilidade futura (Wathes et al. 2007).

Além do interesse nas consequências do BEN e desequilíbrios endócrinos e metabólicos associados, o foco também está sendo direcionado para o efeito das dietas que promovem alto rendimento leiteiro, ricas em energia e proteína (Leroy et al. 2007). Estes estudos nos indicam que condições nutricionais ideais para crescimento folicular e ovulação não são compatíveis com a sobrevida embrionária e manutenção da prenhez (O’Callaghan e Boland 1999).

Finalmente, o estresse calórico pode levar à redução no consumo de matéria seca, prolongando o período em BEN, reduzindo as concentrações plasmáticas de insulina, glicose e IGF-I e promovendo a manutenção de altas concentrações de GH e AGNEs (Drew 1999; Butler 2001). Além disso, existe o efeito direto do estresse calórico sobre os níveis plasmáticos de FSH (elevação) e estradiol (redução) (Wolfenson et al. 1997; Wilson et al. 1998). O resultado é fraca expressão de estro e seleção tardia do folículo, o que potencialmente afeta negativamente a qualidade do ovócito (Roth et al. 2001a,b). Além disso, o estresse calórico pode elevar a temperatura uterina ao reduzir a irrigação sanguínea do útero. Estas alterações inibem o desenvolvimento embrionário (Rivera e Hansen 2001), promovem maior perda embrionária precoce e reduzem a porcentagem de inseminações bem sucedidas (Garcia-Ispierto et al. 2007). O impacto do efeito do calor é reduzido à medida que o embrião se desenvolve (Paula-Lopes et al. 2003).

Algumas Dicas para a Modificação do Eixo Somatotrófico para a Obtenção de Resultados Aceitáveis de Fertilidade

Atacar o problema multifatorial da subfertilidade em vacas leiteiras é um enorme desafio, uma vez que as alterações ‘no eixo somatotrófico’ acima descritas não são os únicos fatores para o declínio da fertilidade. Fatores de manejo, tipos de sistemas de produção, maior suscetibilidade a doenças, aumento do número de animais nos rebanhos leiteiros e baixa disponibilidade de mão de obra interferem com a capacidade de procriação da vaca leiteira (Mallard et al. 1998). Todos estes fatores devem ser cuidadosamente considerados quando se estabelece um plano de manejo, mas estão além do escopo deste trabalho.

Os distúrbios metabólicos (hipocalcemia, cetose e acidose) e doenças infecciosas durante o puerpério são fatores de risco que podem afetar a eficiência do desempenho reprodutivo (Grohn e Rajala-Schultz 2000; Santos et al. 2004b). Bom manejo de parição e cuidadosa observação do estado de saúde da vaca na fase de pósparto imediato são vitais para evitar reduções muito drásticas do apetite do animal. Determinações precisas e repetidas do ECC para estimar a variação nas reservas corporais são fundamentais. Para minimizar as variações de ECC e evitar a ‘exaustão das reservas de energia’ logo após o parto é necessária uma estratégia nutricional ideal, com redução do consumo de energia durante as primeiras semanas do período seco seguida de maior fornecimento de energia (carboidratos) logo antes do parto (consultar revisão de Overton e Waldron 2004). Entretanto, ainda há discussão quanto ao real benefício obtido com a energia adicional préparto sobre o balanço energético pósparto (Grummer 2007). Além disso, modulação adequada da energia da dieta durante o período pósparto imediato parece uma abordagem promissora, embora difícil (Grummer 2007). Van Knegsel et al. (2007a) compararam os efeitos de uma dieta isocalórica e isonitrogenada, uma dieta basicamente glicogênica (amido by-pass) ou uma dieta basicamente lipogênica (polpa de beterraba, MEGALAC e óleo de palma) e demonstraram que a dieta glicogênica (ou ‘insulinogênica’) estimula o direcionamento de energia principalmente para as reservas corporais em fase inicial de lactação. As vacas alimentadas com a dieta glicogênica apresentaram menor BEN e menor mobilização de gordura corporal, que resultou em depressão dos teores de gordura do leite e menor direcionamento de energia para o leite (Van Knegsel et al. 2007a). Em um estudo complementar (Van Knegsel et al. 2007b), vacas multíparas alimentadas com a dieta glicogênica também apresentaram concentrações plasmáticas de insulina mais elevadas e tenderam a retomar mais precocemente a atividade ovariana (20,4 ± 2,1 dias) se comparadas a vacas alimentadas com a dieta mais lipogênica (26,1 ± 2,1 dias).

Acredita-se que alterações de manejo tem grande probabilidade de ter efeito positivo sobre o balanço energético. O encurtamento ou mesmo eliminação do período seco melhora o consumo de material seca no periparto, reduz a produção de leite na fase inicial da lactação, melhora o balanço energético e reduz o número de dias pósparto até a retomada da atividade ovariana (Gumen et al. 2005; Rastani et al. 2005).

Além disso, mais atenção tem sido dada ao teor de ácidos graxos na dieta e à composição da suplementação de gorduras by-pass durante o período pósparto imediato. Não quanto ao efeito sobre o balanço energético em si, mas à melhora da secreção de esteróides e alteração do perfil de ácidos graxos (mais ácidos graxos w-3 poliinsaturados), resultando em modificação do metabolismo de prostaglandinas (Thatcher et al. 2006). A supressão da síntese da gordura do leite através da suplementação de ácidos linolênicos conjugados protegidos da ação ruminal (trans-10, cis-12) já foi sugerida como meio de restringir a perda de energia através do leite (Castaneda-Gutierrez et al. 2005). Ainda assim, apesar de vários artigos recentes bastante interessantes, os resultados sobre o balanço de energia e fertilidade são contraditórios. Overton e Waldron (2004) redigiram uma descrição extensa e clara das estratégias nutricionais para o suporte das demandas metabólicas durante o período de transição e estão além do escopo do presente artigo.

Finalmente, os programas de seleção genética de vacas leiteiras sempre enfatizaram as características de produção de leite via mobilização das reservas corporais. Esta perda de ECC não só depende da massa disponível de tecido adiposo, como também de ponto geneticamente determinado de ECC. Este ponto está correlacionado com o resultado reprodutivo (Lucy 2007). Desta forma, os critérios de seleção genética deveriam também incluir variáveis referentes às variações de ECC após o parto, além das características de fertilidade (Royal et al. 2000).

Conclusões
Em vacas leiteiras de alta produção, a intensa seleção para produção de leite resultou em prioridade de direcionamento de energia para o leite, em detrimento das reservas corporais, resultando em BEN prolongado e acentuado e piora do desempenho reprodutivo. Desta forma, produção de leite e desempenho reprodutivo tem interesses conflitantes em vacas leiteiras de alta produção. Metabólitos e hormônios metabólicos associados ao direcionamento prioritário de energia para a produção de leite (AGNEs, insulina, glicose, IGF-1, b-OH) influenciam a fertilidade, tanto indiretamente através da modulação do eixo somatotrófico ⁄gonadotrófico, assim como diretamente no ovário, folículo ou ambiente uterino. Os distúrbios da fertilidade pósparto podem ser evitados através de acompanhamento cuidadoso no período periparto para o monitoramento do estado de saúde da vaca e a perda de ECC e tratamento direto de distúrbios (infecciosos ou metabólicos) em início de lactação. Além disso, uma série de novas e promissoras estratégias nutricionais, de manejo e de seleção genética foi proposta, que tem o potencial de desviar o foco do eixo somatotrófico que prioriza o direcionamento de energia para o leite para o eixo somatotrófico, que prioriza as reservas corporais para melhorar a fertilidade. As pesquisas nesta área ainda são limitadas e devem explorar tais estratégias, comparando seus benefícios ou até mesmo combinando duas ou mais estratégias, o que seria essencial para a melhora da sanidade e bem estar da moderna vaca leiteira.

Referências

(ver no original)
Parte-3

Este texto é parte da palestra apresentada por Joe Leroy, no XIII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2009.

Algumas Dicas para a Modificação do Eixo Somatotrófico para a Obtenção de Resultados Aceitáveis de Fertilidade
Atacar o problema multifatorial da subfertilidade em vacas leiteiras é um enorme desafio, uma vez que as alterações ‘no eixo somatotrófico’ descritas anteriormente não são os únicos fatores para o declínio da fertilidade. Fatores de manejo, tipos de sistemas de produção, maior suscetibilidade a doenças, aumento do número de animais nos rebanhos leiteiros e baixa disponibilidade de mão de obra interferem com a capacidade de procriação da vaca leiteira (Mallard et al. 1998). Todos estes fatores devem ser cuidadosamente considerados quando se estabelece um plano de manejo.

Os distúrbios metabólicos (hipocalcemia, cetose e acidose) e doenças infecciosas durante o puerpério são fatores de risco que podem afetar a eficiência do desempenho reprodutivo (Grohn e Rajala-Schultz 2000; Santos et al. 2004b). Bom manejo de parição e cuidadosa observação do estado de saúde da vaca na fase de pósparto imediato são vitais para evitar reduções muito drásticas do apetite do animal. Determinações precisas e repetidas do ECC para estimar a variação nas reservas corporais são fundamentais. Para minimizar as variações de ECC e evitar a ‘exaustão das reservas de energia’ logo após o parto é necessária uma estratégia nutricional ideal, com redução do consumo de energia durante as primeiras semanas do período seco seguida de maior fornecimento de energia (carboidratos) logo antes do parto (Overton e Waldron 2004). Entretanto, ainda há discussão quanto ao real benefício obtido com a energia adicional préparto sobre o balanço energético pósparto (Grummer 2007). Além disso, modulação adequada da energia da dieta durante o período pósparto imediato parece uma abordagem promissora, embora difícil (Grummer 2007). Van Knegsel et al. (2007a) compararam os efeitos de uma dieta isocalórica e isonitrogenada, uma dieta basicamente glicogênica (amido by-pass) ou uma dieta basicamente lipogênica (polpa de beterraba, MEGALAC e óleo de palma) e demonstraram que a dieta glicogênica (ou ‘insulinogênica’) estimula o direcionamento de energia principalmente para as reservas corporais em fase inicial de lactação. As vacas alimentadas com a dieta glicogênica apresentaram menor BEN e menor mobilização de gordura corporal, que resultou em depressão dos teores de gordura do leite e menor direcionamento de energia para o leite (Van Knegsel et al. 2007a). Em um estudo complementar (Van Knegsel et al. 2007b), vacas multíparas alimentadas com a dieta glicogênica também apresentaram concentrações plasmáticas de insulina mais elevadas e tenderam a retomar mais precocemente a atividade ovariana (20,4 ± 2,1 dias) se comparadas a vacas alimentadas com a dieta mais lipogênica (26,1 ± 2,1 dias).

Acredita-se que alterações de manejo tem grande probabilidade de ter efeito positivo sobre o balanço energético. O encurtamento ou mesmo eliminação do período seco melhora o consumo de material seca no periparto, reduz a produção de leite na fase inicial da lactação, melhora o balanço energético e reduz o número de dias pósparto até a retomada da atividade ovariana (Gumen et al. 2005; Rastani et al. 2005).

Além disso, mais atenção tem sido dada ao teor de ácidos graxos na dieta e à composição da suplementação de gorduras by-pass durante o período pósparto imediato. Não quanto ao efeito sobre o balanço energético em si, mas à melhora da secreção de esteróides e alteração do perfil de ácidos graxos (mais ácidos graxos w-3 poliinsaturados), resultando em modificação do metabolismo de prostaglandinas (Thatcher et al. 2006). A supressão da síntese da gordura do leite através da suplementação de ácidos linolênicos conjugados protegidos da ação ruminal (trans-10, cis-12) já foi sugerida como meio de restringir a perda de energia através do leite (Castaneda-Gutierrez et al. 2005). Ainda assim, apesar de vários artigos recentes bastante interessantes, os resultados sobre o balanço de energia e fertilidade são contraditórios. Overton e Waldron (2004) redigiram uma descrição extensa e clara das estratégias nutricionais para o suporte das demandas metabólicas durante o período de transição.

Finalmente, os programas de seleção genética de vacas leiteiras sempre enfatizaram as características de produção de leite via mobilização das reservas corporais. Esta perda de ECC não só depende da massa disponível de tecido adiposo, como também de ponto geneticamente determinado de ECC. Este ponto está correlacionado com o resultado reprodutivo (Lucy 2007). Desta forma, os critérios de seleção genética deveriam também incluir variáveis referentes às variações de ECC após o parto, além das características de fertilidade (Royal et al. 2000).

Conclusões
Em vacas leiteiras de alta produção, a intensa seleção para produção de leite resultou em prioridade de direcionamento de energia para o leite, em detrimento das reservas corporais, resultando em BEN prolongado e acentuado e piora do desempenho reprodutivo. Desta forma, produção de leite e desempenho reprodutivo tem interesses conflitantes em vacas leiteiras de alta produção. Metabólitos e hormônios metabólicos associados ao direcionamento prioritário de energia para a produção de leite (AGNEs, insulina, glicose, IGF-1, b-OH) influenciam a fertilidade, tanto indiretamente através da modulação do eixo somatotrófico/gonadotrófico, assim como diretamente no ovário, folículo ou ambiente uterino. Os distúrbios da fertilidade pósparto podem ser evitados através de acompanhamento cuidadoso no período periparto para o monitoramento do estado de saúde da vaca e a perda de ECC e tratamento direto de distúrbios (infecciosos ou metabólicos) em início de lactação. Além disso, uma série de novas e promissoras estratégias nutricionais, de manejo e de seleção genética foram propostas, que tem o potencial de desviar o foco do eixo somatotrófico que prioriza o direcionamento de energia para o leite para o eixo somatotrófico, que prioriza as reservas corporais para melhorar a fertilidade. As pesquisas nesta área ainda são limitadas e devem explorar tais estratégias, comparando seus benefícios ou até mesmo combinando duas ou mais estratégias, o que seria essencial para a melhora da sanidade e bem estar da moderna vaca leiteira.


DETECÇÃO DE RESÍDUOS DE ANTIBIÓTICO


APLICABILIDADE DOS CONJUNTOS PARA DETECÇÃO DE RESÍDUOS DE ANTIBIÓTICOS NO LEITE EM PROPRIEDADES LEITEIRAS
C.H. Corassin & C.A.F. Oliveira
Departamento de Nutrição e Produção Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia/Universidade de São Paulo, Av. Duque de Caxias - Norte, 225, CEP 13630-000, Pirassununga, SP, Brasil.

Este trabalho apresenta os principais critérios para a utilização de conjuntos de reativos comercialmente disponíveis para a detecção de resíduos de antibióticos no leite em propriedades rurais, particularmente no produto individual de vacas leiteiras. O desempenho dos diferentes tipos de conjuntos é analisado à luz das informações relativas às taxas de falso _ positivos e especificidade que apresentam em condições de campo. Considerações são feitas sobre a relevância da análise de resíduos de antibióticos no leite para assegurar a qualidade do produto destinado ao consumo humano.
PALAVRAS-CHAVE: Leite, antibióticos, resíduos, detecção.

APPLICABILITY OF ANTIBIOTIC RESIDUE SCREENING TESTS FOR MILK oN DAIRY FARMS. This article presents the main principles for using commercially available test systems for antibiotic residues in milk, particularly in individual cows. Performance of different kits is analyzed in view of current information regarding false-positive and specificity indexes. Considerations are brought forth on the relevance of antibiotic residue tests for the quality assurance of intended for human consumption milk products.
KEY WORDS: Milk, antibiotics, residues, detection.

A ocorrência de resíduos de antibióticos no leite tem sido objeto de preocupação constante por parte das autoridades sanitárias, devido, sobretudo, aos efeitos tóxicos destes compostos sobre a saúde humana, além da possibilidade de favorecer o desenvolvimento de formas de resistência de microrganismos patogênicos (World Health Organization, 1990). Por este motivo, recomenda-se o monitoramento freqüente de resíduos de medicamentos e seus derivados metabólicos no leite, adotando-se, como referência, os limites estabelecidos através de agências internacionais (Boeckman & Carlson, 1997).
O controle de resíduos de agentes antimicrobianos no leite é particularmente importante, também, para a indústria de produtos lácteos, devido aos prejuízos causados pela interferência destes compostos no desenvolvimento das culturas lácteas largamente empregadas em fábricas de laticínios (Spreer, 1991).
Neste contexto, a produção intensiva de leite de alta qualidade, e sem resíduos de antibióticos, reveste-se de extrema importância para os produtores, ao se considerar os prejuízos e as penalidades decorrentes da rejeição do leite contaminado com valores acima dos níveis de tolerância. Considerando a elevada prevalência de mastites e outras enfermidades que acarretam o uso de drogas antimicrobianas em vacas leiteiras, em nossas condições, torna-se necessário disponibilizar aos produtores instrumentos eficazes que permitam assegurar a produção de leite isento de resíduos de antibióticos.
No presente trabalho, são apresentados os critérios para a utilização dos principais conjuntos comercialmente disponíveis para a detecção de resíduos de antibióticos no leite individual de vacas leiteiras.
Características dos conjuntos analíticos para detecção de antibióticos
Nas últimas décadas, foram desenvolvidas diversas metodologias analíticas para a detecção rápida de resíduos de drogas antimicrobianas no leite. Estas técnicas encontram-se disponíveis no mercado sob a forma de conjuntos de reativos prontos para uso em condições de campo. Os conjuntos foram inicialmente desenvolvidos para utilização em plataformas de recebimento de leite nas usinas, porém, têm sido aplicados, também, em propriedades rurais, para verificar a presença de resíduos no leite armazenado nos tanques ou proveniente de vacas mantidas sob tratamento com antibióticos (Andrew, 1997).
Os conjuntos mais antigos apresentam, como princípio, a inibição do crescimento de espécies de bactérias sensíveis, o que possibilita a sua aplicação em diferentes tipos de amostras, como urina, soro e vários tecidos. A análise é executada em placas, utilizando-se um disco ou swab estéril posto em contato com o fluido ou tecido suspeito de conter resíduos. O swab é, então, posicionado na placa de ágar contendo a bactéria sensível ao antibiótico, após o que é incubado por 8 a 12 horas, dependendo do conjunto utilizado. A zona de inibição de crescimento bacteriano circundante ao swab indica a presença de antibiótico na amostra. Na atualidade, estes conjuntos são utilizados, principalmente, para a detecção de resíduos de drogas antimicrobianas em carcaças de animais de abate (Cullor, 1992).
A inibição do crescimento microbiano pode ser avaliada, também, através de indicadores colorimétricos. Os sistemas que empregam esta técnica são conhecidos pela sigla BsDA (Bacillus stearothermophilus Disk Assay), considerados oficiais para a detecção de resíduos de antibióticos b-lactâmicos no leite (Katz & Siewierski, 1995). Diferentemente dos testes de placa, a inibição microbiana é constatada usando-se um indicador de pH, cuja cor é alterada na presença de compostos ácidos produzidos pelo B. stearothermophilus. Deste modo, se a amostra contém resíduos, o crescimento bacteriano é inibido e a mudança de cor não ocorre.
Os métodos que empregam princípios microbiológicos, contudo, apresentam certas desvantagens, pois necessitam equipamentos e conhecimento técnico especializado para sua execução; além disso, os resultados não são imediatos, somente drogas antibacterianas são detectáveis e a interferência de outras substâncias pode provocar resultados falso-positivos (Andrew et al., 1997).
Recentemente, novos métodos analíticos, baseados em reações imunológicas e/ou enzimáticas foram aprimorados, oferecendo uma alternativa prática aos sistemas microbiológicos. Entre as vantagens destas técnicas, destacam-se rapidez e simplicidade de execução, menor conhecimento técnico exigido para suas operações, maior especificidade para determinados antibióticos e possibilidade de detecção de outros agentes antimicrobianos, além de antibióticos. Os conjuntos que empregam princípios imunológicos baseiam-se na competição por sítios de ligação em receptores de células bacterianas que são específicos para várias classes de antibióticos. Os receptores bacterianos são adicionados à amostra de leite, juntamente com antibióticos conjugados com isótopos radioativos (radioimunoensaio) ou enzimas (ELISA). A concentração de resíduos na amostra pode ser avaliada através de radiometria ou colorimetria, sendo diretamente proporcional ao número de sítios receptores ocupados pelo antibiótico não marcado (Seymour et al., 1988).
Vantagens da aplicação do teste individual em vacas leiteiras
A abordagem tradicional de controle de resíduos de antibióticos no leite preconiza a análise de amostras colhidas nas plataformas das usinas ou no tanque de armazenagem de leite nas propriedades rurais. Existem, no entanto, diversas vantagens em analisar individualmente o leite de vacas que foram tratadas com antibióticos, porém as principais estão relacionadas aos aspectos econômicos e de qualidade do leite produzido. O primeiro é justificado pelo fato de que, se a análise do tanque for positiva para resíduos, o impacto financeiro será muito maior que o decorrente de um resultado positivo para uma vaca. A qualidade do leite produzido, por outro lado, também é assegurada, pois o teste individual das vacas previne a contaminação de todo o produto ordenhado e recolhido no tanque. É importante lembrar que a adição de leite contendo antibióticos, ao leite não contaminado, nem sempre consegue diluir os resíduos no leite de mistura até os níveis de tolerância.
Os testes seletivos são instrumentos auxiliares de grande valia, pois permitem monitorar o intervalo de carência após a aplicação de antibióticos, assegurando que níveis residuais no leite de vacas tratadas sejam menores que os tolerados, antes da adição ao tanque (Andrew, 1997; Corlett, 1997). Porém, alguns cuidados devem ser observados:

  • - A escolha do tipo de conjunto deve levar em consideração a sensibilidade desejada para o antibiótico pesquisado, conforme exemplificado no Quadro I. Isto possibilita ao produtor a detecção de drogas específicas usadas no tratamento do animal, o que conseqüentemente aumenta a precisão analítica para tais substâncias.
  • - Os antibióticos podem ser administrados em doses diferentes das preconizadas na bula. Assim, os períodos de carência podem não corresponder ao esperado, o que obriga a execução das análises após um período maior ao recomendado para uma determinada droga.
  • - Vacas que manifestam sinais evidentes de mastite clínica devem ser monitoradas por período mais prolongado em relação às vacas sadias, para verificar a eliminação do antibiótico.

  • Fatores que podem causar resultados falso-positivos
    Diversos trabalhos indicam que os produtores de leite que se utilizam de testes seletivos para a avaliação de antibióticos no leite possuem menor incidência do produto contendo resíduos (Andrew et al., 1997; Bishop et al., 1985). Deve-se ressaltar, contudo, que o desempenho dos conjuntos pode variar amplamente quando utilizado no leite de diferentes animais, afetando, principalmente, a capacidade do teste em detectar resíduos em amostras comprovadamente positivas. Com relação aos antibióticos ß-lactâmicos, alguns trabalhos demonstram que a especificidade é menor quando realizado no leite de animais acometidos de mastite clínica (Cullor, 1992; Van Eenennaam et al., 1993).
    A ocorrência de resultados falso-positivos indica a presença de altos níveis de antibióticos no leite de vacas não tratadas, ou que contém resíduos em concentrações abaixo dos níveis de tolerância. As conseqüências deste problema recaem principalmente sobre o produtor, acarretando perdas econômicas consideráveis devido ao descarte indevido de leite.
    Resultados falso-positivos, cujos valores variaram de 0 a 83%, foram reportados para diversos testes ß-lactâmicos, quando estes foram usados individualmente em vacas (Andrew et al., 1997; Bishop et al., 1985; Seymour et al., 1988; Van Eenennaam et al., 1993).
    A contagem de células somáticas (CCS) aumenta no leite durante a infecção intramamária, acompanhada de uma rápida elevação de componentes do plasma, devido à resposta inflamatória (Spreer, 1991). Estes componentes mantém-se em níveis elevados mesmo após o tratamento e, dependendo do principio analítico do teste, poderão interferir no resultado do teste (Carlsson et al., 1989). Os efeitos da CCS sobre a ocorrência de falsos-positivos não são ainda conclusivos, embora alguns estudos indiquem maior proporção deste tipo de resultado no leite com CCS acima de 2.500.000/mL, conforme evidenciado na Tabela 1.
    Os percentuais de gordura e proteína do leite também podem variar amplamente de um animal para outro, assim como entre raças, estágios de lactação e condições da infecção intramamária (Sischo & Burns, 1993). As variações destes constituintes influenciam significativamente os resultados dos testes de resíduos, quando utilizados individualmente em vacas. Andrew et al.(1997) obtiveram um aumento na probabilidade de falsos-positivos possivelmente relacionado com o aumento na gordura e/ou proteína do leite.
    A amostragem do leite também constitui fator relevante para uma boa realização do teste. Recomenda-se desprezar os primeiros jatos de leite, uma vez que estes são geralmente ricos em CCS, em comparação à composição total do leite produzido pela vaca e, conseqüentemente, podem acarretar uma maior proporção de falsos-positivos em relação ao leite de mistura (Cullor, 1992; Van Eenennaam et al., 1993).
    É importante ressaltar que os conjuntos de reativos necessitam de condições adequadas de armazenagem e execução, pois, como material biológico, são sensíveis às variações do ambiente. Assim, deve-se procurar mantê-los em temperatura conveniente para conservação, bem como realizar o teste em sala apropriada para esta finalidade, evitando a ocorrência de resultados falso-positivos. Além disso, as orientações fornecidas pelo fabricante devem ser seguidas rigorosamente, principalmente no que se refere à alíquota de leite tomada para o ensaio, ao uso adequado dos reagentes e cumprimento dos períodos de incubação, quando necessários.
    Recomendações para o uso dos conjuntos em propriedades rurais
    A implementação de um programa efetivo de controle de mastites constitui a principal forma de reduzir o uso de antibióticos nos animais e, conseqüentemente, o risco de ocorrência de resíduos no leite. Deste modo, os programas devem contemplar, necessariamente, o monitoramento de resíduos através da utilização de sistemas analíticos apropriados, considerando-se os seguintes critérios:

  • - Após o tratamento, observar e respeitar o período de carência da droga;
  • - Escolher o conjunto apropriado para a detecção dos antibióticos usados na propriedade;
  • - Testar apenas o leite que se encontra visualmente normal, sem grumos e floculações;
  • - Se o resultado for positivo, repetir o teste em amostras duplicadas;
  • - Se persistir o resultado positivo, confirmar com nova amostragem após 24 horas, verificando a ocorrência de altos níveis de CCS;
  • - Caso haja confirmação do resultado positivo, enviar uma amostra para análise na usina processadora de leite.

  • A adoção dos procedimentos acima pode, de fato, reduzir as perdas econômicas decorrentes de resultados falso-positivos. Isto é particularmente importante para os produtores, tendo em vista a entrada em vigor, a partir de janeiro/2000, de legislação concernente aos critérios de qualidade do leite recebido pelas usinas, que deverão incluir limites de tolerância para resíduos de antibióticos ß-lactâmicos. Contudo, a interpretação dos resultados destes conjuntos deve ser cuidadosa, devido à sua natureza qualitativa. Pesquisas são necessárias para o desenvolvimento de conjuntos mais específicos e com sensibilidade adequada aos limites de tolerância para os diversos tipos de antibióticos empregados na produção leiteira.

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    Recebido para publicação em 21/6/99