segunda-feira, 2 de julho de 2012

DISCREPÂNCIA ENTRE METABOLISMO E FERTILIDADE


Priorização de Nutrientes em Vacas Leiteiras no Pós-Parto Imediato: Discrepância entre Metabolismo e Fertilidade? Parte-1

Este texto é parte da palestra apresentada por Joe Leroy, no XIII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2009.

Resumo
Cientistas de todo o mundo têm relatado há várias décadas a redução na fertilidade de vacas leiteiras de alta produção, provavelmente resultante do conflito entre as necessidades metabólicas e reprodutivas. O sucesso obtido com o aumento da produção de leite dos rebanhos foi acompanhado por tendências negativas dos parâmetros reprodutivos mais perceptíveis, tais como intervalo entre partos, número de dias abertos e número de inseminações por prenhez. Em paralelo, muitos grupos de pesquisa estudaram os fatores metabólicos e endócrinos que influenciam o crescimento folicular e a competência de ovócitos e embriões. No passado, especialistas em reprodução procuravam resolver estes problemas, porém com recursos limitados. Mais recentemente, a situação melhorou significativamente e nutricionistas e veterinários conduzem pesquisas em equipes multidisciplinares. Este trabalho de revisão discute inicialmente a priorização da utilização de nutrientes para o úbere para garantir a produção de leite e descreve as interações entre o eixo somatotrófico e gonadotrófico. Em seguida, discute as consequências do balanço energético negativo sobre o crescimento folicular e qualidade do ambiente do ovócito e do embrião, resumindo as hipóteses atualmente aceitas com base em evidências científicas em nível folicular. A discussão considera uma questão básica: a discrepância existente entre metabolismo e fertilidade e o que se pode fazer, em base nos dados científicos, para resolver o problema do baixo nível de fertilidade dos rebanhos leiteiros?

Introdução
O baixo desempenho reprodutivo em rebanhos leiteiros de alta produção é um problema global, caracterizado como multifatorial e que exigiu uma abordagem multidisciplinar, em que cientistas, veterinários e biólogos moleculares desvendaram em conjunto a complexa patogenia desta ‘síndrome da sub-fertilidade’. Afinal, a produção de um bezerro em intervalos regulares é considerada um pré-requisito para um desempenho rentável de lactação (Royal et al. 2000; Huirne et al. 2002). Depois do parto, o processo de emprenhar novamente nas vacas leiteiras é iniciado com a eliminação do conteúdo e posterior involução uterina, com retomada posterior da atividade ovariana. O resultado é o crescimento de um folículo saudável, contendo um ovócito competente, manifestação do estro, ovulação, fertilização e implantação de um embrião viável no útero. Qualquer distúrbio destes eventos biológicos e mecânicos balanceados e delicadamente sintonizados resulta em falha reprodutiva – exatamente o que tem acontecido com nossos modernos rebanhos leiteiros.

A síndrome da subfertilidade pode ser dividida em dois principais subproblemas. Em primeiro lugar, até 50% das modernas vacas leiteiras apresentam ciclos estrais pósparto anormais, resultando em intervalos prolongados entre parto e primeira inseminação (Opsomer et al. 1998). Neste contexto, as pesquisas se concentraram especialmente na instabilidade do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano–uterino (Lucy 2001; Butler 2003). A redução concomitante na expressão do estro ou até mesmo anestro, formação de cistos e atraso na primeira ovulação foram extensamente documentados (Beam e Butler 1997; de Vries e Veerkamp 2000; Lopez et al. 2004; Vanholder et al. 2006a). Em segundo lugar, deu-se atenção às baixíssimas taxas de concepção (Bousquet et al. 2004) e à crescente incidência de mortalidade embrionária precoce (Dunne et al. 1999; Mann e Lamming 2001; Bilodeau-Goeseels e Kastelic 2003). A fertilização dos ovócitos de vacas de alto mérito genético resulta em produções significativamente menores de blastocistos in vitro, independentemente do nível de produção de leite (Snijders et al. 2000). A qualidade dos embriões também é afetada em vacas leiteiras de alta produção, se comparadas a vacas que não estejam em lactação (Wiltbank et al. 2001; Leroy et al. 2005a). Vacas em lactação apresentam número muito mais elevado de embriões não viáveis se comparadas a vacas não lactantes (Sartori et al. 2002). Aproximadamente 70–80% do total de perdas embrionárias e fetais corre tipicamente durante o período embrionário precoce, pré-implantação (Santos et al. 2004a).

As vacas leiteiras modernas, embora subférteis, produzem enormes quantidades de leite, principalmente devido à combinação de melhoramento genético e manejo nutricional otimizado para a lactação. Em base na fertilidade de novilhas, mantida praticamente inalterada, podemos concluir que os processos reprodutivos das modernas vacas leiteiras são essencialmente normais quando não existem as demandas da lactação (Lucy 2007). Por que o organismo destas vacas dá prioridade para a produção de leite em detrimento da eficiência reprodutiva? Nesta revisão, procura-se responder a esta pergunta. O alto rendimento leiteiro e a boa fertilidade têm interesses conflitantes em termos metabólicos?

Da Priorização de Nutrientes Determinada Filogeneticamente à Geneticamente Influenciada: Consequências Metabólicas
Do ponto de vista biológico, faz sentido que os mamíferos favoreçam a lactação na fase inicial, em detrimento da fertilidade: a isto damos o nome de priorização de nutrientes (Lucy 2003). À medida que há escassez de disponibilidade de nutrientes, a fêmea em lactação investe preferencialmente estes recursos limitados na sobrevida de sua progênie, ao invés de apostar em um ovócito que ainda nem foi ovulado ou fertilizado e necessitará de cuidados durante toda a gestação. Este mecanismo de catabolismo materno, geneticamente programado, deve maximizar a probabilidade de sobrevida do recém-nascido (Silvia 2003). Ao longo dos últimos 40 anos, o foco da indústria de produção leiteira foi a maximização do rendimento leiteiro, criando uma ‘via expressa de nutrientes’ da dieta e reservas corporais (estimadas em 74% de gordura e 6% de proteína corporal: Tamminga et al. 1997) diretamente para o úbere para manter a produção de leite.

As necessidades de nutrientes do útero grávido em fase final de gestação fazem com que a vaca leiteira entre em estado catabólico. Depois do parto, ocorre uma demanda adicional por glicose, ácidos graxos e proteína quando se inicia a produção de leite. Durante este período de transição, as vacas são incapazes de compensar este aumento da demanda por energia através do aumento do consumo de ração e ocorre o balanço energético negativo (BEN). As concentrações de insulina drasticamente reduzidas resultam em mobilização de energia e distribuição para o úbere. A hipoinsulinemia promove a gliconeogênese no fígado (até 4 kg de glicose diariamente) e atua como potente gatilho lipolítico. Os ácidos graxos não esterificados (AGNEs) mobilizados atuam como fonte alternativa de energia para outros tecidos para poupar a glicose, preferencialmente utilizada pela glândula mamária para produzir lactose (Vernon 2002). Os AGNEs são predominantemente transportados para o fígado onde sofrem oxidação para fornecer energia ou são transformados em corpos cetônicos, para serem utilizados como fonte alternativa de energia em outros locais do organismo. Uma sobrecarga anormal do fígado por AGNEs pode induzir esteatose e alteração da função hepática (Herdt 2000). As lipases ativadas por hormônios do tecido adiposo de vacas leiteiras de alta produção têm maior sensibilidade a estímulos lipolíticos (tais como baixas concentrações de insulina e altos níveis de catecolaminas ou glicocorticóides). Em outras palavras, vacas leiteiras de alta produção foram geneticamente selecionadas para direcionarem uma fração ainda maior de suas reservas de energia para a produção de leite (Coffey et al. 2004). Desta forma, um nível mais elevado de ingestão de energia resulta em produção mais elevada de leite, mas com a manutenção do desequilíbrio energético, sem nenhum efeito benéfico sobre o escore de condição corporal (ECC) (Patton et al. 2006).

Uma série de mecanismos biológicos resulta em priorização dos nutrientes para a produção de leite em detrimento das reservas corporais no período do pósparto imediato. Em primeiro lugar, o úbere é beneficiado, pois não necessita de insulina para facilitar a captação de glicose nas células pelas moléculas de transporte de glicose, GLUT 1 e 3, enquanto a maior parte dos demais tecidos expressa predominantemente a GLUT 4, insulina-dependente (Zhao et al. 1996). Em segundo lugar, com o auxílio de testes intravenosos seriados de tolerância à glicose, observamos recentemente uma supressão temporária da função pancreática no período pósparto imediato de vacas leiteiras de alta produção e que foi correlacionada a elevadas contrações de AGNEs (Bossaert et al. 2007). In vitro, altos níveis de AGNEs têm efeitos tóxicos sobre as células pancreáticas (Cnop et al. 2001; Maedler et al. 2001). Em terceiro lugar, as baixas concentrações de insulina imediatamente após o parto inativam o eixo do hormônio do fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-I) no fígado devido à infrarregulação dos receptores 1A de GH – este mecanismo pode ser restaurado pela elevação das concentrações de insulina (Butler et al. 2003). À medida que a produção hepática de IGF-I é suprimida, o feedback negativo do IGF-I é removido no hipotálamo ⁄ hipófise e as concentrações de GH se elevam. Altas concentrações de GH não só estimulam a produção de leite como também ativam a gliconeogenêse hepática e a lipólise nos adipócitos. As altas concentrações séricas resultantes de AGNEs e GH antagonizam a ação da insulina e criam um estado mais intenso de resistência periférica à insulina (Lucy 2007; Pires et al. 2007). Desta forma, ainda mais glicose é preservada para estar disponível para a síntese de lactose.

Vacas mais gordas tendem a mobilizar mais gordura corporal devido ao apetite reduzido (Garnsworthy e Topps 1982). Aceita-se amplamente que a seleção genética para produção de leite resulta em maior perda de ECC, comprovando que há mais direcionamento de energia para o úbere (Roche et al. 2006). Uma perda excessiva de ECC durante o período de transição é um importante fator predisponente para distúrbios de fertilidade e problemas de saúde (Roche et al. 2007), o que enfatiza a importância do monitoramento do ECC no período pósparto imediato como ferramenta de manejo (Chagas et al. 2007).

Interações entre os Eixos Somatotrófico e Gonadotrófico
Extensas pesquisas científicas demonstraram que os mecanismos que regulam a distribuição de energia e nutrientes no sistema somatotrófico podem afetar o sistema reprodutivo em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano (Roche 2006; Chagas et al. 2007). No hipotálamo, as interações entre os sistemas gonadotrófico e somatotrófico podem ocorrer na área pré-óptica (Blache et al. 2006, 2007). Esta região produz os hormônios de liberação que controlam tanto a secreção de gonadotrofinas quanto de somatotrofinas (Kacsoh 2000). Além disso, desempenha um papel crítico na integração do apetite (Wynne et al. 2005), comportamento estral (Pfaff 2005) e a percepção do estado nutricional (Wade e Jones 2004). Consequentemente, as informações metabólicas no hipotálamo podem ter efeitos divergentes sobre os eixos gonadotrófico e somatotrófico, ou seja, o estímulo da produção de GH pode ser acompanhada pela inibição da secreção de GnRH (Zieba et al. 2005). Os hormônios ⁄ metabólitos que exercem função de sinalização são glicose e insulina. Baixos teores pósparto de insulina e glicemia reduzida suprimem a secreção hipotalâmica de GnRH e posterior liberação de LH pela hipófise (Diskin et al. 2003; Ohkura et al. 2004). Ao ativar neurônios específicos no pró-encéfalo, peptídeos tais como o neuropeptídeo Y e catecolaminas são liberados, suprimindo o gerador hipotalâmico de pulsos de GnRH (Ichimaru et al. 2001; Diskin et al. 2003; Wade e Jones 2004). Outros sinais metabólicos podem envolver leptina e AGNEs, embora seu papel ainda não tenha sido esclarecido (Liefers et al. 2003; Wade e Jones 2004; Amstalden et al. 2005).

No ovário desenvolvimento folicular parece ser diretamente influenciado por alterações de níveis de insulina, IGF-I, leptina e AGNEs. Como a insulina estimula localmente o crescimento e a maturação folicular e esteroidogênese, a redução das concentrações no período pósparto estão correlacionadas à disfunção ovariana (Gutierrez-Aguilar 1997; Landau et al. 2000; Armstrong et al. 2002a; Butler et al. 2004; Vanholder et al. 2005a; Kawashima et al. 2007). O tratamento de longo prazo com somatotropina bovina exógena claramente eleva o número de pequenos folículos (Bols et al. 1998). Gong (2002)  demonstrou que os efeitos benéficos da insulina sobre a função ovariana são independentes das variações de liberação de GnRH⁄LH. Nas células ovarianas, as GLUT-1 e GLUT-3 insulina-independentes são os principais transportadores de glicose, enquanto a GLUT-4 insulina-dependente somente desempenha um papel de suporte (Nishimoto et al. 2006). Desta forma, a insulina pode exercer seus efeitos através de outros mecanismos que não a mediação da captação de glicose.

Além da insulina, o sistema IGF também desempenha papel importante no crescimento e desenvolvimento folicular ao atuar diretamente sobre as células ovarianas (Spicer e Echternkamp 1995; Gutierrez-Aguilar 1997; Beam e Butler 1999; Webb et al. 1999; Gong 2002). Consequentemente, baixos níveis circulantes de IGF-1 influenciam negativamente a retomada da atividade ovariana pósparto e parecem estar envolvidos no desenvolvimento de folículos ovarianos císticos (Beam e Butler 1997; Kawashima et al. 2007; Ortega et al. 2007). Os efeitos da leptina sobre a esteroidogênese e proliferação celular são dependentes das concentrações séricas de IGF-1, LH e insulina (Spicer e Francisco 1997, 1998; Spicer et al. 2000).

No ovário os AGNEs podem afetar o crescimento e desenvolvimento folicular ao atuarem diretamente sobre as células do folículo. A adição in vitro de AGNEs em concentrações medidas no fluido folicular (FF) durante o BEN (balanço energético negativo) tem efeitos negativos sobre a viabilidade e função de células foliculares (Leroy et al. 2005b; Vanholder et al. 2005b, 2006b).

Em conclusão, as alterações metabólicas induzidas pelo sistema somatotrófico para sustentar altos níveis de rendimento leiteiro também afetam o sistema reprodutivo. Ao atuar em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano, níveis alterados de hormônios e metabólitos exercem efeito negativo sobre o crescimento e desenvolvimento de folículos e provavelmente sobre a ovulação.

Consequências para a Qualidade do Ovócito
Os pesquisadores supõem a existência de um efeito residual (carry-over effect) das condições metabólicas adversas durante o crescimento de folículos primários no período pósparto imediato sobre a saúde do folículo préovulatório, 2–3 meses depois (Britt 1992). Tais folículos podem ser menos capazes de produzir níveis adequados de estrógenos e progesterona (depois da ovulação) e podem estar destinados a conter um ovócito de qualidade inferior (Britt 1992; Roth et al. 2001a). A capacidade de desenvolvimento do ovócito está intimamente ligada à fase de crescimento e à saúde do folículo em desenvolvimento (Bilodeau-Goeseels e Panich 2002; Sutton et al. 2003; Lequarre et al. 2005). Finalmente, a composição da dieta também pode alterar o microambiente endócrino e metabólico do ovócito em desenvolvimento (Boland et al. 2001; McEvoy et al. 2001; Kenny et al. 2002).

Um ambiente endócrino alterado, devido ou em consequência de BEN pode alterar a qualidade do ovócito através de uma série de mecanismos, tais como atraso do crescimento folicular e da retomada da progressão da meiose, todos já objeto de revisões anteriores detalhadas (Leroy et al. 2007). Somente poucos estudos examinaram os efeitos possíveis sobre a qualidade do ovócito das baixas concentrações de glicose ou da elevação dos níveis de b-hidroxibutirato (b-OHB) ou AGNEs associados ao BEN. Além dos efeitos indiretos da hipoglicemia nas vacas recémparidas (através de um efeito sobre a secreção de LH ou responsividade ovariana às gonadotrofinas), as condições de hipoglicemia (como cetose clínica) se refletem no microambiente do ovócito préovulatório e podem comprometer sua capacidade de desenvolvimento, pois a glicose é uma molécula indispensável para uma maturação adequada do ovócito (Bilodeau-Goeseels 2006; consultar revisão de Sutton et al. 2003; Leroy et al. 2004, 2006). Kruip e Kemp (1999) sugeriram possíveis efeitos tóxicos diretos de altos níveis de AGNEs no ovario. Em um modelo da maturação in vitro, ácidos graxos de cadeia longa saturados reduziram as taxas de maturação, fertilização, clivagem e formação de blastocistos. Apoptose ou mesmo necrose das células do cúmulo ocorridas durante a maturação poderiam explicar estes efeitos (Leroy et al. 2005b). Finalmente, concentrações elevadas de amônia e uréia no FF, decorrentes de uma dieta desequilibrada e catabolismo de proteínas também se mostraram tóxicas para o ovócito (Sinclair et al. 2000; De Wit et al. 2001; Leroy et al. 2004).

Fase Inicial da Gestação em Vacas Leiteiras de Alta Produção: Qualidade do Embrião
A mortalidade embrionária precoce é a principal causa de falha reprodutiva em vacas de leite, representando até 80% das perdas totais de gestação (Santos et al. 2004a). Existem quatro principais fatores que afetam a qualidade do embrião no caso específico de vacas leiteiras de alta produção: qualidade dos gametas, qualidade do corpo lúteo combinada à concentração de progesterona circulante, involução uterina e nutrição. Entretanto, somente discutiremos os fatores relacionados ao BEN.

Condições préovulatórias adversas, como BEN, podem ter efeitos residuais (carry-over effects) sobre o metabolismo e viabilidade embrionária, resultando em mortalidade precoce (Yaakub et al. 1999; Lozano et al. 2003; Rhoads et al. 2006). Pode ser bastante difícil separar os efeitos do ovócito das influências pósfertilização sobre a qualidade do embrião. Somente embriões de pelo menos 6 dias de idade podem ser transferidos para receptoras para avaliar o impacto do ambiente uterino sobre a qualidade do embrião. Lucy (2007) defende a idéia de que a fertilidade pode ser melhorada em vacas leiteiras através da transferência de embriões, evitando assim os efeitos do período do ovócito e desenvolvimento embrionário precoce.

Concentrações bem sincronizadas e balanceadas de progesterona são vitais para a viabilidade do zigoto imediatamente após a fertilização, uma vez que a progesterona modula as secreções endometriais, otimizando a receptividade uterina (McEvoy et al. 1995). Já foi levantada a hipótese de que os resultados decepcionantes em termos de taxas de concepção e prenhez em vacas leiteiras modernas são parcialmente decorrentes do atraso para a elevação dos níveis de progesterona e concentrações subótimas de progesterona durante a fase lútea (Mann e Lamming 2001). Além disso, o típico BEN observado no período pósparto imediato pode reduzir o número de ciclos estrais ovulatórios que antecedem a IA, impedindo que ocorra uma preparação adequada do útero (Butler 2003). Villa-Godoy et al. (1988) demonstraram que vacas em BEN pósparto apresentavam concentrações mais baixas de progesterona durante os três primeiros ciclos após a parição. Apesar de maiores volumes de tecido luteal que em novilhas não lactantes, os níveis máximos de progesterona em vacas em lactação são inferiores, possivelmente devido a maior taxa de degradação hepática do hormônio (Sangsritavong et al. 2002; Sartori et al. 2004; Wiltbank et al. 2006).

A boa involução uterina pós-parto, com reparo do endométrio e esvaziamento de conteúdos contaminados por bactérias, é de fundamental importância para o desempenho reprodutivo (para revisão, ver Roche et al. 2006). Devido aos efeitos na supressão da resposta imunológica, BEN pode retardar dramaticamente este processo, comprometendo a fertilidade futura (Wathes et al. 2007).

Além do interesse nas consequências do BEN e desequilíbrios endócrinos e metabólicos associados, o foco também está sendo direcionado para o efeito das dietas que promovem alto rendimento leiteiro, ricas em energia e proteína (consultar revisão de Leroy et al. 2007). Estes estudos nos indicam que condições nutricionais ideais para crescimento folicular e ovulação não são compatíveis com a sobrevida embrionária e manutenção da prenhez (O’Callaghan e Boland 1999).

Finalmente, o estresse calórico pode levar à redução no consumo de matéria seca, prolongando o período em BEN, reduzindo as concentrações plasmáticas de insulina, glicose e IGF-I e promovendo a manutenção de altas concentrações de GH e AGNEs (Drew 1999; Butler 2001). Além disso, existe o efeito direto do estresse calórico sobre os níveis plasmáticos de FSH (elevação) e estradiol (redução) (Wolfenson et al. 1997; Wilson et al. 1998). O resultado é fraca expressão de estro e seleção tardia do folículo, o que potencialmente afeta negativamente a qualidade do ovócito (Roth et al. 2001a,b). Além disso, o estresse calórico pode elevar a temperatura uterina ao reduzir a irrigação sanguínea do útero. Estas alterações inibem o desenvolvimento embrionário (Rivera e Hansen 2001), promovem maior perda embrionária precoce e reduzem a porcentagem de inseminações bem sucedidas (Garcia-Ispierto et al. 2007). O impacto do efeito do calor é reduzido à medida que o embrião se desenvolve (Paula-Lopes et al. 2003).

Todos os fatores acima descritos, que potencialmente afetam a fertilidade, estão representados no diagrama da Figura 1.

Editar figura

Fig. 1. Interação entre seleção genética para produção de leite e fertilidade. A combinação das variações endócrinas e metabólicas para dar suporte à produção de leite com maior suscetibilidade ao estresse calórico, doenças e condições sub-ótimas de manejo tem efeito negativo sobre o desempenho reprodutivo da vaca leiteira de alta produção.

PRIORITIZAÇÃO DE NUTRIENTES :
Depleção geneticamente determinada das reservas corporais

Prioridade genética para características                                  
de produção de leite

Valor genético para
fertilidade


Maior suscetibilidade a:
Doenças metabólicas/infecciosas
Estresse calórico
Manejo subótimo:
Dieta
Alojamento
Tamanho de rebanho
Mão de obra por animal
Detecção de estro

FERTILIDADE
Eixo hipotalâmico-pituitário-ovariano
Qualidade de ovócito/embrião
Qualidade do corpo lúteo
Ambiente no folículo, oviduto, útero

ADAPTAÇÕES METABÓLICAS PARA ESTADO CATABÓLICO
BEN, perda de ECC, apetite reduzido
Baixos níveis de insulina, IGF-I, alto nível de GH
Baixo nível de leptina
Altos níveis de AGNEs, corpos cetônicos, uréia,
Baixa glicemia
Resistência periférica à insulina

Efeitos diretos ou residuais


Algumas Dicas para a Modificação do Eixo Somatotrófico para a Obtenção de Resultados Aceitáveis de Fertilidade

Atacar o problema multifatorial da subfertilidade em vacas leiteiras é um enorme desafio, uma vez que as alterações ‘no eixo somatotrófico’ acima descritas não são os únicos fatores para o declínio da fertilidade. Fatores de manejo, tipos de sistemas de produção, maior suscetibilidade a doenças, aumento do número de animais nos rebanhos leiteiros e baixa disponibilidade de mão de obra interferem com a capacidade de procriação da vaca leiteira (Mallard et al. 1998). Todos estes fatores devem ser cuidadosamente considerados quando se estabelece um plano de manejo, mas estão além do escopo deste trabalho.

Os distúrbios metabólicos (hipocalcemia, cetose e acidose) e doenças infecciosas durante o puerpério são fatores de risco que podem afetar a eficiência do desempenho reprodutivo (Grohn e Rajala-Schultz 2000; Santos et al. 2004b). Bom manejo de parição e cuidadosa observação do estado de saúde da vaca na fase de pósparto imediato são vitais para evitar reduções muito drásticas do apetite do animal. Determinações precisas e repetidas do ECC para estimar a variação nas reservas corporais são fundamentais. Para minimizar as variações de ECC e evitar a ‘exaustão das reservas de energia’ logo após o parto é necessária uma estratégia nutricional ideal, com redução do consumo de energia durante as primeiras semanas do período seco seguida de maior fornecimento de energia (carboidratos) logo antes do parto (consultar revisão de Overton e Waldron 2004). Entretanto, ainda há discussão quanto ao real benefício obtido com a energia adicional préparto sobre o balanço energético pósparto (Grummer 2007). Além disso, modulação adequada da energia da dieta durante o período pósparto imediato parece uma abordagem promissora, embora difícil (Grummer 2007). Van Knegsel et al. (2007a) compararam os efeitos de uma dieta isocalórica e isonitrogenada, uma dieta basicamente glicogênica (amido by-pass) ou uma dieta basicamente lipogênica (polpa de beterraba, MEGALAC e óleo de palma) e demonstraram que a dieta glicogênica (ou ‘insulinogênica’) estimula o direcionamento de energia principalmente para as reservas corporais em fase inicial de lactação. As vacas alimentadas com a dieta glicogênica apresentaram menor BEN e menor mobilização de gordura corporal, que resultou em depressão dos teores de gordura do leite e menor direcionamento de energia para o leite (Van Knegsel et al. 2007a). Em um estudo complementar (Van Knegsel et al. 2007b), vacas multíparas alimentadas com a dieta glicogênica também apresentaram concentrações plasmáticas de insulina mais elevadas e tenderam a retomar mais precocemente a atividade ovariana (20,4 ± 2,1 dias) se comparadas a vacas alimentadas com a dieta mais lipogênica (26,1 ± 2,1 dias).

Acredita-se que alterações de manejo tem grande probabilidade de ter efeito positivo sobre o balanço energético. O encurtamento ou mesmo eliminação do período seco melhora o consumo de material seca no periparto, reduz a produção de leite na fase inicial da lactação, melhora o balanço energético e reduz o número de dias pósparto até a retomada da atividade ovariana (Gumen et al. 2005; Rastani et al. 2005).

Além disso, mais atenção tem sido dada ao teor de ácidos graxos na dieta e à composição da suplementação de gorduras by-pass durante o período pósparto imediato. Não quanto ao efeito sobre o balanço energético em si, mas à melhora da secreção de esteróides e alteração do perfil de ácidos graxos (mais ácidos graxos w-3 poliinsaturados), resultando em modificação do metabolismo de prostaglandinas (Thatcher et al. 2006). A supressão da síntese da gordura do leite através da suplementação de ácidos linolênicos conjugados protegidos da ação ruminal (trans-10, cis-12) já foi sugerida como meio de restringir a perda de energia através do leite (Castaneda-Gutierrez et al. 2005). Ainda assim, apesar de vários artigos recentes bastante interessantes, os resultados sobre o balanço de energia e fertilidade são contraditórios. Overton e Waldron (2004) redigiram uma descrição extensa e clara das estratégias nutricionais para o suporte das demandas metabólicas durante o período de transição e estão além do escopo do presente artigo.

Finalmente, os programas de seleção genética de vacas leiteiras sempre enfatizaram as características de produção de leite via mobilização das reservas corporais. Esta perda de ECC não só depende da massa disponível de tecido adiposo, como também de ponto geneticamente determinado de ECC. Este ponto está correlacionado com o resultado reprodutivo (Lucy 2007). Desta forma, os critérios de seleção genética deveriam também incluir variáveis referentes às variações de ECC após o parto, além das características de fertilidade (Royal et al. 2000).

Conclusões
Em vacas leiteiras de alta produção, a intensa seleção para produção de leite resultou em prioridade de direcionamento de energia para o leite, em detrimento das reservas corporais, resultando em BEN prolongado e acentuado e piora do desempenho reprodutivo. Desta forma, produção de leite e desempenho reprodutivo tem interesses conflitantes em vacas leiteiras de alta produção. Metabólitos e hormônios metabólicos associados ao direcionamento prioritário de energia para a produção de leite (AGNEs, insulina, glicose, IGF-1, b-OH) influenciam a fertilidade, tanto indiretamente através da modulação do eixo somatotrófico ⁄gonadotrófico, assim como diretamente no ovário, folículo ou ambiente uterino. Os distúrbios da fertilidade pósparto podem ser evitados através de acompanhamento cuidadoso no período periparto para o monitoramento do estado de saúde da vaca e a perda de ECC e tratamento direto de distúrbios (infecciosos ou metabólicos) em início de lactação. Além disso, uma série de novas e promissoras estratégias nutricionais, de manejo e de seleção genética foi proposta, que tem o potencial de desviar o foco do eixo somatotrófico que prioriza o direcionamento de energia para o leite para o eixo somatotrófico, que prioriza as reservas corporais para melhorar a fertilidade. As pesquisas nesta área ainda são limitadas e devem explorar tais estratégias, comparando seus benefícios ou até mesmo combinando duas ou mais estratégias, o que seria essencial para a melhora da sanidade e bem estar da moderna vaca leiteira.

Referências

(ver no original)
Parte-2

Este texto é parte da palestra apresentada por Joe Leroy, no XIII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2009.

Interações entre os Eixos Somatotrófico e Gonadotrófico
Extensas pesquisas científicas demonstraram que os mecanismos que regulam a distribuição de energia e nutrientes no sistema somatotrófico podem afetar o sistema reprodutivo em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano (Roche 2006; Chagas et al. 2007). No hipotálamo, as interações entre os sistemas gonadotrófico e somatotrófico podem ocorrer na área pré-óptica (Blache et al. 2006, 2007). Esta região produz os hormônios de liberação que controlam tanto a secreção de gonadotrofinas quanto de somatotrofinas (Kacsoh 2000). Além disso, desempenha um papel crítico na integração do apetite (Wynne et al. 2005), comportamento estral (Pfaff 2005) e a percepção do estado nutricional (Wade e Jones 2004). Consequentemente, as informações metabólicas no hipotálamo podem ter efeitos divergentes sobre os eixos gonadotrófico e somatotrófico, ou seja, o estímulo da produção de GH pode ser acompanhada pela inibição da secreção de GnRH (Zieba et al. 2005). Os hormônios metabólitos que exercem função de sinalização são glicose e insulina. Baixos teores pósparto de insulina e glicemia reduzida suprimem a secreção hipotalâmica de GnRH e posterior liberação de LH pela hipófise (Diskin et al. 2003; Ohkura et al. 2004). Ao ativar neurônios específicos no pró-encéfalo, peptídeos tais como o neuropeptídeo Y e catecolaminas são liberados, suprimindo o gerador hipotalâmico de pulsos de GnRH (Ichimaru et al. 2001; Diskin et al. 2003; Wade e Jones 2004). Outros sinais metabólicos podem envolver leptina e AGNEs, embora seu papel ainda não tenha sido esclarecido (Liefers et al. 2003; Wade e Jones 2004; Amstalden et al. 2005).

No ovário desenvolvimento folicular parece ser diretamente influenciado por alterações de níveis de insulina, IGF-I, leptina e AGNEs. Como a insulina estimula localmente o crescimento e a maturação folicular e esteroidogênese, a redução das concentrações no período pósparto estão correlacionadas à disfunção ovariana (Gutierrez-Aguilar 1997; Landau et al. 2000; Armstrong et al. 2002a; Butler et al. 2004; Vanholder et al. 2005a; Kawashima et al. 2007). O tratamento de longo prazo com somatotropina bovina exógena claramente eleva o número de pequenos folículos (Bols et al. 1998). Gong (2002) demonstrou que os efeitos benéficos da insulina sobre a função ovariana são independentes das variações de liberação de GnRH⁄LH. Nas células ovarianas, as GLUT-1 e GLUT-3 insulina-independentes são os principais transportadores de glicose, enquanto a GLUT-4 insulina-dependente somente desempenha um papel de suporte (Nishimoto et al. 2006). Desta forma, a insulina pode exercer seus efeitos através de outros mecanismos que não a mediação da captação de glicose.

Além da insulina, o sistema IGF também desempenha papel importante no crescimento e desenvolvimento folicular ao atuar diretamente sobre as células ovarianas (Spicer e Echternkamp 1995; Gutierrez-Aguilar 1997; Beam e Butler 1999; Webb et al. 1999; Gong 2002). Consequentemente, baixos níveis circulantes de IGF-1 influenciam negativamente a retomada da atividade ovariana pósparto e parecem estar envolvidos no desenvolvimento de folículos ovarianos císticos (Beam e Butler 1997; Kawashima et al. 2007; Ortega et al. 2007). Os efeitos da leptina sobre a esteroidogênese e proliferação celular são dependentes das concentrações séricas de IGF-1, LH e insulina (Spicer e Francisco 1997, 1998; Spicer et al. 2000).

No ovário os AGNEs podem afetar o crescimento e desenvolvimento folicular ao atuarem diretamente sobre as células do folículo. A adição in vitro de AGNEs em concentrações medidas no fluido folicular (FF) durante o BEN (balanço energético negativo) tem efeitos negativos sobre a viabilidade e função de células foliculares (Leroy et al. 2005b; Vanholder et al. 2005b, 2006b).

Em conclusão, as alterações metabólicas induzidas pelo sistema somatotrófico para sustentar altos níveis de rendimento leiteiro também afetam o sistema reprodutivo. Ao atuar em diferentes níveis do eixo hipotalâmico–pituitário–ovariano, níveis alterados de hormônios e metabólitos exercem efeito negativo sobre o crescimento e desenvolvimento de folículos e provavelmente sobre a ovulação.

Consequências para a Qualidade do Ovócito
Os pesquisadores supõem a existência de um efeito residual (carry-over effect) das condições metabólicas adversas durante o crescimento de folículos primários no período pósparto imediato sobre a saúde do folículo préovulatório, 2–3 meses depois (Britt 1992). Tais folículos podem ser menos capazes de produzir níveis adequados de estrógenos e progesterona (depois da ovulação) e podem estar destinados a conter um ovócito de qualidade inferior (Britt 1992; Roth et al. 2001a). A capacidade de desenvolvimento do ovócito está intimamente ligada à fase de crescimento e à saúde do folículo em desenvolvimento (Bilodeau-Goeseels e Panich 2002; Sutton et al. 2003; Lequarre et al. 2005). Finalmente, a composição da dieta também pode alterar o microambiente endócrino e metabólico do ovócito em desenvolvimento (Boland et al. 2001; McEvoy et al. 2001; Kenny et al. 2002).

Um ambiente endócrino alterado, devido ou em consequência de BEN pode alterar a qualidade do ovócito através de uma série de mecanismos, tais como atraso do crescimento folicular e da retomada da progressão da meiose, todos já objeto de revisões anteriores detalhadas (Leroy et al. 2007). Somente poucos estudos examinaram os efeitos possíveis sobre a qualidade do ovócito das baixas concentrações de glicose ou da elevação dos níveis de b-hidroxibutirato (b-OHB) ou AGNEs associados ao BEN. Além dos efeitos indiretos da hipoglicemia nas vacas recémparidas (através de um efeito sobre a secreção de LH ou responsividade ovariana às gonadotrofinas), as condições de hipoglicemia (como cetose clínica) se refletem no microambiente do ovócito préovulatório e podem comprometer sua capacidade de desenvolvimento, pois a glicose é uma molécula indispensável para uma maturação adequada do ovócito (Bilodeau-Goeseels 2006; consultar revisão de Sutton et al. 2003; Leroy et al. 2004, 2006). Kruip e Kemp (1999) sugeriram possíveis efeitos tóxicos diretos de altos níveis de AGNEs no ovario. Em um modelo da maturação in vitro, ácidos graxos de cadeia longa saturados reduziram as taxas de maturação, fertilização, clivagem e formação de blastocistos. Apoptose ou mesmo necrose das células do cúmulo ocorridas durante a maturação poderiam explicar estes efeitos (Leroy et al. 2005b). Finalmente, concentrações elevadas de amônia e uréia no fluido folicular, decorrentes de uma dieta desequilibrada e catabolismo de proteínas também se mostraram tóxicas para o ovócito (Sinclair et al. 2000; De Wit et al. 2001; Leroy et al. 2004).

Fase Inicial da Gestação em Vacas Leiteiras de Alta Produção: Qualidade do Embrião
A mortalidade embrionária precoce é a principal causa de falha reprodutiva em vacas de leite, representando até 80% das perdas totais de gestação (Santos et al. 2004a). Existem quatro principais fatores que afetam a qualidade do embrião no caso específico de vacas leiteiras de alta produção: qualidade dos gametas, qualidade do corpo lúteo combinada à concentração de progesterona circulante, involução uterina e nutrição. Entretanto, somente discutiremos os fatores relacionados ao BEN.

Condições préovulatórias adversas, como BEN, podem ter efeitos residuais (carry-over effects) sobre o metabolismo e viabilidade embrionária, resultando em mortalidade precoce (Yaakub et al. 1999; Lozano et al. 2003; Rhoads et al. 2006). Pode ser bastante difícil separar os efeitos do ovócito das influências pósfertilização sobre a qualidade do embrião. Somente embriões de pelo menos 6 dias de idade podem ser transferidos para receptoras para avaliar o impacto do ambiente uterino sobre a qualidade do embrião. Lucy (2007) defende a idéia de que a fertilidade pode ser melhorada em vacas leiteiras através da transferência de embriões, evitando assim os efeitos do período do ovócito e desenvolvimento embrionário precoce.

Concentrações bem sincronizadas e balanceadas de progesterona são vitais para a viabilidade do zigoto imediatamente após a fertilização, uma vez que a progesterona modula as secreções endometriais, otimizando a receptividade uterina (McEvoy et al. 1995). Já foi levantada a hipótese de que os resultados decepcionantes em termos de taxas de concepção e prenhez em vacas leiteiras modernas são parcialmente decorrentes do atraso para a elevação dos níveis de progesterona e concentrações subótimas de progesterona durante a fase lútea (Mann e Lamming 2001). Além disso, o típico BEN observado no período pósparto imediato pode reduzir o número de ciclos estrais ovulatórios que antecedem a IA, impedindo que ocorra uma preparação adequada do útero (Butler 2003). Villa-Godoy et al. (1988) demonstraram que vacas em BEN pósparto apresentavam concentrações mais baixas de progesterona durante os três primeiros ciclos após a parição. Apesar de maiores volumes de tecido luteal que em novilhas não lactantes, os níveis máximos de progesterona em vacas em lactação são inferiores, possivelmente devido a maior taxa de degradação hepática do hormônio (Sangsritavong et al. 2002; Sartori et al. 2004; Wiltbank et al. 2006).

A boa involução uterina pós-parto, com reparo do endométrio e esvaziamento de conteúdos contaminados por bactérias, é de fundamental importância para o desempenho reprodutivo (Roche et al. 2006). Devido aos efeitos na supressão da resposta imunológica, BEN pode retardar dramaticamente este processo, comprometendo a fertilidade futura (Wathes et al. 2007).

Além do interesse nas consequências do BEN e desequilíbrios endócrinos e metabólicos associados, o foco também está sendo direcionado para o efeito das dietas que promovem alto rendimento leiteiro, ricas em energia e proteína (Leroy et al. 2007). Estes estudos nos indicam que condições nutricionais ideais para crescimento folicular e ovulação não são compatíveis com a sobrevida embrionária e manutenção da prenhez (O’Callaghan e Boland 1999).

Finalmente, o estresse calórico pode levar à redução no consumo de matéria seca, prolongando o período em BEN, reduzindo as concentrações plasmáticas de insulina, glicose e IGF-I e promovendo a manutenção de altas concentrações de GH e AGNEs (Drew 1999; Butler 2001). Além disso, existe o efeito direto do estresse calórico sobre os níveis plasmáticos de FSH (elevação) e estradiol (redução) (Wolfenson et al. 1997; Wilson et al. 1998). O resultado é fraca expressão de estro e seleção tardia do folículo, o que potencialmente afeta negativamente a qualidade do ovócito (Roth et al. 2001a,b). Além disso, o estresse calórico pode elevar a temperatura uterina ao reduzir a irrigação sanguínea do útero. Estas alterações inibem o desenvolvimento embrionário (Rivera e Hansen 2001), promovem maior perda embrionária precoce e reduzem a porcentagem de inseminações bem sucedidas (Garcia-Ispierto et al. 2007). O impacto do efeito do calor é reduzido à medida que o embrião se desenvolve (Paula-Lopes et al. 2003).

Algumas Dicas para a Modificação do Eixo Somatotrófico para a Obtenção de Resultados Aceitáveis de Fertilidade

Atacar o problema multifatorial da subfertilidade em vacas leiteiras é um enorme desafio, uma vez que as alterações ‘no eixo somatotrófico’ acima descritas não são os únicos fatores para o declínio da fertilidade. Fatores de manejo, tipos de sistemas de produção, maior suscetibilidade a doenças, aumento do número de animais nos rebanhos leiteiros e baixa disponibilidade de mão de obra interferem com a capacidade de procriação da vaca leiteira (Mallard et al. 1998). Todos estes fatores devem ser cuidadosamente considerados quando se estabelece um plano de manejo, mas estão além do escopo deste trabalho.

Os distúrbios metabólicos (hipocalcemia, cetose e acidose) e doenças infecciosas durante o puerpério são fatores de risco que podem afetar a eficiência do desempenho reprodutivo (Grohn e Rajala-Schultz 2000; Santos et al. 2004b). Bom manejo de parição e cuidadosa observação do estado de saúde da vaca na fase de pósparto imediato são vitais para evitar reduções muito drásticas do apetite do animal. Determinações precisas e repetidas do ECC para estimar a variação nas reservas corporais são fundamentais. Para minimizar as variações de ECC e evitar a ‘exaustão das reservas de energia’ logo após o parto é necessária uma estratégia nutricional ideal, com redução do consumo de energia durante as primeiras semanas do período seco seguida de maior fornecimento de energia (carboidratos) logo antes do parto (consultar revisão de Overton e Waldron 2004). Entretanto, ainda há discussão quanto ao real benefício obtido com a energia adicional préparto sobre o balanço energético pósparto (Grummer 2007). Além disso, modulação adequada da energia da dieta durante o período pósparto imediato parece uma abordagem promissora, embora difícil (Grummer 2007). Van Knegsel et al. (2007a) compararam os efeitos de uma dieta isocalórica e isonitrogenada, uma dieta basicamente glicogênica (amido by-pass) ou uma dieta basicamente lipogênica (polpa de beterraba, MEGALAC e óleo de palma) e demonstraram que a dieta glicogênica (ou ‘insulinogênica’) estimula o direcionamento de energia principalmente para as reservas corporais em fase inicial de lactação. As vacas alimentadas com a dieta glicogênica apresentaram menor BEN e menor mobilização de gordura corporal, que resultou em depressão dos teores de gordura do leite e menor direcionamento de energia para o leite (Van Knegsel et al. 2007a). Em um estudo complementar (Van Knegsel et al. 2007b), vacas multíparas alimentadas com a dieta glicogênica também apresentaram concentrações plasmáticas de insulina mais elevadas e tenderam a retomar mais precocemente a atividade ovariana (20,4 ± 2,1 dias) se comparadas a vacas alimentadas com a dieta mais lipogênica (26,1 ± 2,1 dias).

Acredita-se que alterações de manejo tem grande probabilidade de ter efeito positivo sobre o balanço energético. O encurtamento ou mesmo eliminação do período seco melhora o consumo de material seca no periparto, reduz a produção de leite na fase inicial da lactação, melhora o balanço energético e reduz o número de dias pósparto até a retomada da atividade ovariana (Gumen et al. 2005; Rastani et al. 2005).

Além disso, mais atenção tem sido dada ao teor de ácidos graxos na dieta e à composição da suplementação de gorduras by-pass durante o período pósparto imediato. Não quanto ao efeito sobre o balanço energético em si, mas à melhora da secreção de esteróides e alteração do perfil de ácidos graxos (mais ácidos graxos w-3 poliinsaturados), resultando em modificação do metabolismo de prostaglandinas (Thatcher et al. 2006). A supressão da síntese da gordura do leite através da suplementação de ácidos linolênicos conjugados protegidos da ação ruminal (trans-10, cis-12) já foi sugerida como meio de restringir a perda de energia através do leite (Castaneda-Gutierrez et al. 2005). Ainda assim, apesar de vários artigos recentes bastante interessantes, os resultados sobre o balanço de energia e fertilidade são contraditórios. Overton e Waldron (2004) redigiram uma descrição extensa e clara das estratégias nutricionais para o suporte das demandas metabólicas durante o período de transição e estão além do escopo do presente artigo.

Finalmente, os programas de seleção genética de vacas leiteiras sempre enfatizaram as características de produção de leite via mobilização das reservas corporais. Esta perda de ECC não só depende da massa disponível de tecido adiposo, como também de ponto geneticamente determinado de ECC. Este ponto está correlacionado com o resultado reprodutivo (Lucy 2007). Desta forma, os critérios de seleção genética deveriam também incluir variáveis referentes às variações de ECC após o parto, além das características de fertilidade (Royal et al. 2000).

Conclusões
Em vacas leiteiras de alta produção, a intensa seleção para produção de leite resultou em prioridade de direcionamento de energia para o leite, em detrimento das reservas corporais, resultando em BEN prolongado e acentuado e piora do desempenho reprodutivo. Desta forma, produção de leite e desempenho reprodutivo tem interesses conflitantes em vacas leiteiras de alta produção. Metabólitos e hormônios metabólicos associados ao direcionamento prioritário de energia para a produção de leite (AGNEs, insulina, glicose, IGF-1, b-OH) influenciam a fertilidade, tanto indiretamente através da modulação do eixo somatotrófico ⁄gonadotrófico, assim como diretamente no ovário, folículo ou ambiente uterino. Os distúrbios da fertilidade pósparto podem ser evitados através de acompanhamento cuidadoso no período periparto para o monitoramento do estado de saúde da vaca e a perda de ECC e tratamento direto de distúrbios (infecciosos ou metabólicos) em início de lactação. Além disso, uma série de novas e promissoras estratégias nutricionais, de manejo e de seleção genética foi proposta, que tem o potencial de desviar o foco do eixo somatotrófico que prioriza o direcionamento de energia para o leite para o eixo somatotrófico, que prioriza as reservas corporais para melhorar a fertilidade. As pesquisas nesta área ainda são limitadas e devem explorar tais estratégias, comparando seus benefícios ou até mesmo combinando duas ou mais estratégias, o que seria essencial para a melhora da sanidade e bem estar da moderna vaca leiteira.

Referências

(ver no original)
Parte-3

Este texto é parte da palestra apresentada por Joe Leroy, no XIII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2009.

Algumas Dicas para a Modificação do Eixo Somatotrófico para a Obtenção de Resultados Aceitáveis de Fertilidade
Atacar o problema multifatorial da subfertilidade em vacas leiteiras é um enorme desafio, uma vez que as alterações ‘no eixo somatotrófico’ descritas anteriormente não são os únicos fatores para o declínio da fertilidade. Fatores de manejo, tipos de sistemas de produção, maior suscetibilidade a doenças, aumento do número de animais nos rebanhos leiteiros e baixa disponibilidade de mão de obra interferem com a capacidade de procriação da vaca leiteira (Mallard et al. 1998). Todos estes fatores devem ser cuidadosamente considerados quando se estabelece um plano de manejo.

Os distúrbios metabólicos (hipocalcemia, cetose e acidose) e doenças infecciosas durante o puerpério são fatores de risco que podem afetar a eficiência do desempenho reprodutivo (Grohn e Rajala-Schultz 2000; Santos et al. 2004b). Bom manejo de parição e cuidadosa observação do estado de saúde da vaca na fase de pósparto imediato são vitais para evitar reduções muito drásticas do apetite do animal. Determinações precisas e repetidas do ECC para estimar a variação nas reservas corporais são fundamentais. Para minimizar as variações de ECC e evitar a ‘exaustão das reservas de energia’ logo após o parto é necessária uma estratégia nutricional ideal, com redução do consumo de energia durante as primeiras semanas do período seco seguida de maior fornecimento de energia (carboidratos) logo antes do parto (Overton e Waldron 2004). Entretanto, ainda há discussão quanto ao real benefício obtido com a energia adicional préparto sobre o balanço energético pósparto (Grummer 2007). Além disso, modulação adequada da energia da dieta durante o período pósparto imediato parece uma abordagem promissora, embora difícil (Grummer 2007). Van Knegsel et al. (2007a) compararam os efeitos de uma dieta isocalórica e isonitrogenada, uma dieta basicamente glicogênica (amido by-pass) ou uma dieta basicamente lipogênica (polpa de beterraba, MEGALAC e óleo de palma) e demonstraram que a dieta glicogênica (ou ‘insulinogênica’) estimula o direcionamento de energia principalmente para as reservas corporais em fase inicial de lactação. As vacas alimentadas com a dieta glicogênica apresentaram menor BEN e menor mobilização de gordura corporal, que resultou em depressão dos teores de gordura do leite e menor direcionamento de energia para o leite (Van Knegsel et al. 2007a). Em um estudo complementar (Van Knegsel et al. 2007b), vacas multíparas alimentadas com a dieta glicogênica também apresentaram concentrações plasmáticas de insulina mais elevadas e tenderam a retomar mais precocemente a atividade ovariana (20,4 ± 2,1 dias) se comparadas a vacas alimentadas com a dieta mais lipogênica (26,1 ± 2,1 dias).

Acredita-se que alterações de manejo tem grande probabilidade de ter efeito positivo sobre o balanço energético. O encurtamento ou mesmo eliminação do período seco melhora o consumo de material seca no periparto, reduz a produção de leite na fase inicial da lactação, melhora o balanço energético e reduz o número de dias pósparto até a retomada da atividade ovariana (Gumen et al. 2005; Rastani et al. 2005).

Além disso, mais atenção tem sido dada ao teor de ácidos graxos na dieta e à composição da suplementação de gorduras by-pass durante o período pósparto imediato. Não quanto ao efeito sobre o balanço energético em si, mas à melhora da secreção de esteróides e alteração do perfil de ácidos graxos (mais ácidos graxos w-3 poliinsaturados), resultando em modificação do metabolismo de prostaglandinas (Thatcher et al. 2006). A supressão da síntese da gordura do leite através da suplementação de ácidos linolênicos conjugados protegidos da ação ruminal (trans-10, cis-12) já foi sugerida como meio de restringir a perda de energia através do leite (Castaneda-Gutierrez et al. 2005). Ainda assim, apesar de vários artigos recentes bastante interessantes, os resultados sobre o balanço de energia e fertilidade são contraditórios. Overton e Waldron (2004) redigiram uma descrição extensa e clara das estratégias nutricionais para o suporte das demandas metabólicas durante o período de transição.

Finalmente, os programas de seleção genética de vacas leiteiras sempre enfatizaram as características de produção de leite via mobilização das reservas corporais. Esta perda de ECC não só depende da massa disponível de tecido adiposo, como também de ponto geneticamente determinado de ECC. Este ponto está correlacionado com o resultado reprodutivo (Lucy 2007). Desta forma, os critérios de seleção genética deveriam também incluir variáveis referentes às variações de ECC após o parto, além das características de fertilidade (Royal et al. 2000).

Conclusões
Em vacas leiteiras de alta produção, a intensa seleção para produção de leite resultou em prioridade de direcionamento de energia para o leite, em detrimento das reservas corporais, resultando em BEN prolongado e acentuado e piora do desempenho reprodutivo. Desta forma, produção de leite e desempenho reprodutivo tem interesses conflitantes em vacas leiteiras de alta produção. Metabólitos e hormônios metabólicos associados ao direcionamento prioritário de energia para a produção de leite (AGNEs, insulina, glicose, IGF-1, b-OH) influenciam a fertilidade, tanto indiretamente através da modulação do eixo somatotrófico/gonadotrófico, assim como diretamente no ovário, folículo ou ambiente uterino. Os distúrbios da fertilidade pósparto podem ser evitados através de acompanhamento cuidadoso no período periparto para o monitoramento do estado de saúde da vaca e a perda de ECC e tratamento direto de distúrbios (infecciosos ou metabólicos) em início de lactação. Além disso, uma série de novas e promissoras estratégias nutricionais, de manejo e de seleção genética foram propostas, que tem o potencial de desviar o foco do eixo somatotrófico que prioriza o direcionamento de energia para o leite para o eixo somatotrófico, que prioriza as reservas corporais para melhorar a fertilidade. As pesquisas nesta área ainda são limitadas e devem explorar tais estratégias, comparando seus benefícios ou até mesmo combinando duas ou mais estratégias, o que seria essencial para a melhora da sanidade e bem estar da moderna vaca leiteira.


DETECÇÃO DE RESÍDUOS DE ANTIBIÓTICO


APLICABILIDADE DOS CONJUNTOS PARA DETECÇÃO DE RESÍDUOS DE ANTIBIÓTICOS NO LEITE EM PROPRIEDADES LEITEIRAS
C.H. Corassin & C.A.F. Oliveira
Departamento de Nutrição e Produção Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia/Universidade de São Paulo, Av. Duque de Caxias - Norte, 225, CEP 13630-000, Pirassununga, SP, Brasil.

Este trabalho apresenta os principais critérios para a utilização de conjuntos de reativos comercialmente disponíveis para a detecção de resíduos de antibióticos no leite em propriedades rurais, particularmente no produto individual de vacas leiteiras. O desempenho dos diferentes tipos de conjuntos é analisado à luz das informações relativas às taxas de falso _ positivos e especificidade que apresentam em condições de campo. Considerações são feitas sobre a relevância da análise de resíduos de antibióticos no leite para assegurar a qualidade do produto destinado ao consumo humano.
PALAVRAS-CHAVE: Leite, antibióticos, resíduos, detecção.

APPLICABILITY OF ANTIBIOTIC RESIDUE SCREENING TESTS FOR MILK oN DAIRY FARMS. This article presents the main principles for using commercially available test systems for antibiotic residues in milk, particularly in individual cows. Performance of different kits is analyzed in view of current information regarding false-positive and specificity indexes. Considerations are brought forth on the relevance of antibiotic residue tests for the quality assurance of intended for human consumption milk products.
KEY WORDS: Milk, antibiotics, residues, detection.

A ocorrência de resíduos de antibióticos no leite tem sido objeto de preocupação constante por parte das autoridades sanitárias, devido, sobretudo, aos efeitos tóxicos destes compostos sobre a saúde humana, além da possibilidade de favorecer o desenvolvimento de formas de resistência de microrganismos patogênicos (World Health Organization, 1990). Por este motivo, recomenda-se o monitoramento freqüente de resíduos de medicamentos e seus derivados metabólicos no leite, adotando-se, como referência, os limites estabelecidos através de agências internacionais (Boeckman & Carlson, 1997).
O controle de resíduos de agentes antimicrobianos no leite é particularmente importante, também, para a indústria de produtos lácteos, devido aos prejuízos causados pela interferência destes compostos no desenvolvimento das culturas lácteas largamente empregadas em fábricas de laticínios (Spreer, 1991).
Neste contexto, a produção intensiva de leite de alta qualidade, e sem resíduos de antibióticos, reveste-se de extrema importância para os produtores, ao se considerar os prejuízos e as penalidades decorrentes da rejeição do leite contaminado com valores acima dos níveis de tolerância. Considerando a elevada prevalência de mastites e outras enfermidades que acarretam o uso de drogas antimicrobianas em vacas leiteiras, em nossas condições, torna-se necessário disponibilizar aos produtores instrumentos eficazes que permitam assegurar a produção de leite isento de resíduos de antibióticos.
No presente trabalho, são apresentados os critérios para a utilização dos principais conjuntos comercialmente disponíveis para a detecção de resíduos de antibióticos no leite individual de vacas leiteiras.
Características dos conjuntos analíticos para detecção de antibióticos
Nas últimas décadas, foram desenvolvidas diversas metodologias analíticas para a detecção rápida de resíduos de drogas antimicrobianas no leite. Estas técnicas encontram-se disponíveis no mercado sob a forma de conjuntos de reativos prontos para uso em condições de campo. Os conjuntos foram inicialmente desenvolvidos para utilização em plataformas de recebimento de leite nas usinas, porém, têm sido aplicados, também, em propriedades rurais, para verificar a presença de resíduos no leite armazenado nos tanques ou proveniente de vacas mantidas sob tratamento com antibióticos (Andrew, 1997).
Os conjuntos mais antigos apresentam, como princípio, a inibição do crescimento de espécies de bactérias sensíveis, o que possibilita a sua aplicação em diferentes tipos de amostras, como urina, soro e vários tecidos. A análise é executada em placas, utilizando-se um disco ou swab estéril posto em contato com o fluido ou tecido suspeito de conter resíduos. O swab é, então, posicionado na placa de ágar contendo a bactéria sensível ao antibiótico, após o que é incubado por 8 a 12 horas, dependendo do conjunto utilizado. A zona de inibição de crescimento bacteriano circundante ao swab indica a presença de antibiótico na amostra. Na atualidade, estes conjuntos são utilizados, principalmente, para a detecção de resíduos de drogas antimicrobianas em carcaças de animais de abate (Cullor, 1992).
A inibição do crescimento microbiano pode ser avaliada, também, através de indicadores colorimétricos. Os sistemas que empregam esta técnica são conhecidos pela sigla BsDA (Bacillus stearothermophilus Disk Assay), considerados oficiais para a detecção de resíduos de antibióticos b-lactâmicos no leite (Katz & Siewierski, 1995). Diferentemente dos testes de placa, a inibição microbiana é constatada usando-se um indicador de pH, cuja cor é alterada na presença de compostos ácidos produzidos pelo B. stearothermophilus. Deste modo, se a amostra contém resíduos, o crescimento bacteriano é inibido e a mudança de cor não ocorre.
Os métodos que empregam princípios microbiológicos, contudo, apresentam certas desvantagens, pois necessitam equipamentos e conhecimento técnico especializado para sua execução; além disso, os resultados não são imediatos, somente drogas antibacterianas são detectáveis e a interferência de outras substâncias pode provocar resultados falso-positivos (Andrew et al., 1997).
Recentemente, novos métodos analíticos, baseados em reações imunológicas e/ou enzimáticas foram aprimorados, oferecendo uma alternativa prática aos sistemas microbiológicos. Entre as vantagens destas técnicas, destacam-se rapidez e simplicidade de execução, menor conhecimento técnico exigido para suas operações, maior especificidade para determinados antibióticos e possibilidade de detecção de outros agentes antimicrobianos, além de antibióticos. Os conjuntos que empregam princípios imunológicos baseiam-se na competição por sítios de ligação em receptores de células bacterianas que são específicos para várias classes de antibióticos. Os receptores bacterianos são adicionados à amostra de leite, juntamente com antibióticos conjugados com isótopos radioativos (radioimunoensaio) ou enzimas (ELISA). A concentração de resíduos na amostra pode ser avaliada através de radiometria ou colorimetria, sendo diretamente proporcional ao número de sítios receptores ocupados pelo antibiótico não marcado (Seymour et al., 1988).
Vantagens da aplicação do teste individual em vacas leiteiras
A abordagem tradicional de controle de resíduos de antibióticos no leite preconiza a análise de amostras colhidas nas plataformas das usinas ou no tanque de armazenagem de leite nas propriedades rurais. Existem, no entanto, diversas vantagens em analisar individualmente o leite de vacas que foram tratadas com antibióticos, porém as principais estão relacionadas aos aspectos econômicos e de qualidade do leite produzido. O primeiro é justificado pelo fato de que, se a análise do tanque for positiva para resíduos, o impacto financeiro será muito maior que o decorrente de um resultado positivo para uma vaca. A qualidade do leite produzido, por outro lado, também é assegurada, pois o teste individual das vacas previne a contaminação de todo o produto ordenhado e recolhido no tanque. É importante lembrar que a adição de leite contendo antibióticos, ao leite não contaminado, nem sempre consegue diluir os resíduos no leite de mistura até os níveis de tolerância.
Os testes seletivos são instrumentos auxiliares de grande valia, pois permitem monitorar o intervalo de carência após a aplicação de antibióticos, assegurando que níveis residuais no leite de vacas tratadas sejam menores que os tolerados, antes da adição ao tanque (Andrew, 1997; Corlett, 1997). Porém, alguns cuidados devem ser observados:

  • - A escolha do tipo de conjunto deve levar em consideração a sensibilidade desejada para o antibiótico pesquisado, conforme exemplificado no Quadro I. Isto possibilita ao produtor a detecção de drogas específicas usadas no tratamento do animal, o que conseqüentemente aumenta a precisão analítica para tais substâncias.
  • - Os antibióticos podem ser administrados em doses diferentes das preconizadas na bula. Assim, os períodos de carência podem não corresponder ao esperado, o que obriga a execução das análises após um período maior ao recomendado para uma determinada droga.
  • - Vacas que manifestam sinais evidentes de mastite clínica devem ser monitoradas por período mais prolongado em relação às vacas sadias, para verificar a eliminação do antibiótico.

  • Fatores que podem causar resultados falso-positivos
    Diversos trabalhos indicam que os produtores de leite que se utilizam de testes seletivos para a avaliação de antibióticos no leite possuem menor incidência do produto contendo resíduos (Andrew et al., 1997; Bishop et al., 1985). Deve-se ressaltar, contudo, que o desempenho dos conjuntos pode variar amplamente quando utilizado no leite de diferentes animais, afetando, principalmente, a capacidade do teste em detectar resíduos em amostras comprovadamente positivas. Com relação aos antibióticos ß-lactâmicos, alguns trabalhos demonstram que a especificidade é menor quando realizado no leite de animais acometidos de mastite clínica (Cullor, 1992; Van Eenennaam et al., 1993).
    A ocorrência de resultados falso-positivos indica a presença de altos níveis de antibióticos no leite de vacas não tratadas, ou que contém resíduos em concentrações abaixo dos níveis de tolerância. As conseqüências deste problema recaem principalmente sobre o produtor, acarretando perdas econômicas consideráveis devido ao descarte indevido de leite.
    Resultados falso-positivos, cujos valores variaram de 0 a 83%, foram reportados para diversos testes ß-lactâmicos, quando estes foram usados individualmente em vacas (Andrew et al., 1997; Bishop et al., 1985; Seymour et al., 1988; Van Eenennaam et al., 1993).
    A contagem de células somáticas (CCS) aumenta no leite durante a infecção intramamária, acompanhada de uma rápida elevação de componentes do plasma, devido à resposta inflamatória (Spreer, 1991). Estes componentes mantém-se em níveis elevados mesmo após o tratamento e, dependendo do principio analítico do teste, poderão interferir no resultado do teste (Carlsson et al., 1989). Os efeitos da CCS sobre a ocorrência de falsos-positivos não são ainda conclusivos, embora alguns estudos indiquem maior proporção deste tipo de resultado no leite com CCS acima de 2.500.000/mL, conforme evidenciado na Tabela 1.
    Os percentuais de gordura e proteína do leite também podem variar amplamente de um animal para outro, assim como entre raças, estágios de lactação e condições da infecção intramamária (Sischo & Burns, 1993). As variações destes constituintes influenciam significativamente os resultados dos testes de resíduos, quando utilizados individualmente em vacas. Andrew et al.(1997) obtiveram um aumento na probabilidade de falsos-positivos possivelmente relacionado com o aumento na gordura e/ou proteína do leite.
    A amostragem do leite também constitui fator relevante para uma boa realização do teste. Recomenda-se desprezar os primeiros jatos de leite, uma vez que estes são geralmente ricos em CCS, em comparação à composição total do leite produzido pela vaca e, conseqüentemente, podem acarretar uma maior proporção de falsos-positivos em relação ao leite de mistura (Cullor, 1992; Van Eenennaam et al., 1993).
    É importante ressaltar que os conjuntos de reativos necessitam de condições adequadas de armazenagem e execução, pois, como material biológico, são sensíveis às variações do ambiente. Assim, deve-se procurar mantê-los em temperatura conveniente para conservação, bem como realizar o teste em sala apropriada para esta finalidade, evitando a ocorrência de resultados falso-positivos. Além disso, as orientações fornecidas pelo fabricante devem ser seguidas rigorosamente, principalmente no que se refere à alíquota de leite tomada para o ensaio, ao uso adequado dos reagentes e cumprimento dos períodos de incubação, quando necessários.
    Recomendações para o uso dos conjuntos em propriedades rurais
    A implementação de um programa efetivo de controle de mastites constitui a principal forma de reduzir o uso de antibióticos nos animais e, conseqüentemente, o risco de ocorrência de resíduos no leite. Deste modo, os programas devem contemplar, necessariamente, o monitoramento de resíduos através da utilização de sistemas analíticos apropriados, considerando-se os seguintes critérios:

  • - Após o tratamento, observar e respeitar o período de carência da droga;
  • - Escolher o conjunto apropriado para a detecção dos antibióticos usados na propriedade;
  • - Testar apenas o leite que se encontra visualmente normal, sem grumos e floculações;
  • - Se o resultado for positivo, repetir o teste em amostras duplicadas;
  • - Se persistir o resultado positivo, confirmar com nova amostragem após 24 horas, verificando a ocorrência de altos níveis de CCS;
  • - Caso haja confirmação do resultado positivo, enviar uma amostra para análise na usina processadora de leite.

  • A adoção dos procedimentos acima pode, de fato, reduzir as perdas econômicas decorrentes de resultados falso-positivos. Isto é particularmente importante para os produtores, tendo em vista a entrada em vigor, a partir de janeiro/2000, de legislação concernente aos critérios de qualidade do leite recebido pelas usinas, que deverão incluir limites de tolerância para resíduos de antibióticos ß-lactâmicos. Contudo, a interpretação dos resultados destes conjuntos deve ser cuidadosa, devido à sua natureza qualitativa. Pesquisas são necessárias para o desenvolvimento de conjuntos mais específicos e com sensibilidade adequada aos limites de tolerância para os diversos tipos de antibióticos empregados na produção leiteira.

    Andrew, S.M. Antibiotic residue tests for individual cows - an update. Proc. Annu. Meet. Nat. Mastitis Council, p.191- 201, 1997.
    Andrew, S.M.; Frobish, R.A.; Paape, M.J.; Maturin, L.J. Evaluation of selected antibiotic residue screening tests for milk from cows and examination of factors that affect the probability of false-positive outcomes. J. Dairy Sci., v.80, p.3050- 3057, 1997.
    Bishop, J.R.; Bodine, A.B.; O'Dell, G.D.; Janzen, J.J. Quantitative assay for antibiotics used commonly in treatment of bovine infections. J. Dairy Sci., v.68, p.3031- 3036, 1985.
    Boeckman, S. & Carlson, K.R. Milk and dairy beef residue prevention protocol. Arlington: Agri-Education, 1997.
    Carlsson, A.; Bjorck, L.; Persson, K. Lactoferrin and lysozyme in milk during acute mastitis and their inhibitory effect in Delvotest P. J. Dairy Sci., v.72, p.3166- 3175, 1989.
    Corlett, J.N. Findings in field investigations of residue
    violations. Proc. Annu. Meet. Nat. Mastitis Council, p.186-189, 1997.
    Cullor, J.S. Cowside testing antibiotic residues: problems and solutions. Proc. Annu. Meet. Nat. Mastitis Council, p.154-158, 1992.
    Katz, S.E. & Siewierski, M. Bacillus stearothermophilus disc assay: a review. J. Assoc. Off. Anal. Chem. Int., v.78, p.1408-1412, 1995.
    Seymour, E.H.; Jones, G.M.; McGilliard, M.L. Comparisons of on-farm screening tests for detection of antibiotic residues. J. Dairy Sci., v.71, p.539- 544, 1988.
    Sischo, W.M. & Burns, C.M. Field trial of four cowside antibiotic-residue screening tests. J. Amer. Vet. Med. Assoc. , v.202, p.1249-1254, 1993.
    Spreer, E. Lactologia industrial. 2. ed. Zaragoza: Acribia, 1991.
    Van Eenennaam, A.L.; Cullor, J.S.; Perani, L.; Garddner, I.A.; Smith, W.L.; Dellinger, J.; Guterbock, W.M. Evaluation of milk residue screening tests in cattle with naturally occurring clinical mastitis. J. Dairy Sci., v.76, p.3041-3053, 1993.
    World Health Organization. Evaluation of certain veterinary drug residues in food. Geneva: who, 1990. (Tecnhical Report Series, 799).

    Recebido para publicação em 21/6/99

    terça-feira, 19 de junho de 2012

    VACINAS E VACINAÇÕES NA PECUÁRIA LEITEIRA

    Vacinas e Vacinações na Pecuária Leiteira - como aumentar a eficiência O sucesso da atividade leiteira é dependente de uma série de aspectos relacionados ao animal, às instalações e ao manejo. Com relação ao animal destaca-se a genética; nas instalações destacam-se os aspectos relacionados ao ambiente (facilidade de manejo, limpeza, desinfecção) e de conforto (bem-estar animal); no item manejo, devem ser incluídos, principalmente, os tópicos de manejo zootécnico (práticas de produção) e nutricional. Entretanto, outro aspecto não citado anteriormente, e que é um dos mais importantes para assegurar a produtividade e rentabilidade da atividade pecuária, é a saúde animal. A saúde animal não é estática, ela é dinâmica, e está intrinsicamente relacionada com todos os tópicos anteriores. O presente artigo destina-se, fundamentalmente, a discutir formas de aumento da eficiência de vacinas na pecuária leiteira e, com isso, infelizmente essa inter-relação da saúde animal com outros tópicos da atividade leiteira não poderá ser discutida com maior propriedade. Entretanto, para falar de vacinas é obrigatório falar de saúde e para falar de saúde não podemos deixar de falar em doenças e nas formas como as mesmas ocorrem. Discutiremos mais adiante alguns aspectos relacionados exclusivamente às doenças, destacando-se como, porque e quando ocorrem, quem são os responsáveis, como o organismo animal procura combatê-las e como nós podemos auxiliar nessa defesa. Discutindo resumidamente a inter-relação dos tópicos anteriores, no que tange ao animal, podemos dizer que a genética e a saúde animal podem constituir-se em duas faces da mesma moeda. Em todas as áreas do conhecimento da biologia é sabido que, quando procuramos melhorar uma determinada característica de um ser vivo, quase sempre, alteramos outra característica. Na pecuária leiteira teríamos uma série de exemplos que poderiam ser citados, mas um que qualquer produtor de leite sabe muito bem é que quanto mais especializada é a sua vaca na produção de leite maior é a susceptibilidade às mastites, tanto clínicas quanto subclínicas. Quanto mais pura (grau sanguíneo) for a sua bezerra, mais susceptível ela será aos episódios de diarreia neonatal e aos problemas respiratórios. Ou seja, quando melhoramos uma aptidão, com frequência, diminuímos a rusticidade do animal. Os animais foram criados para serem livres na natureza. Porém, essa forma de criação é incompatível com a produção de proteína animal suficiente para o consumo humano. No nosso caso específico, a produção leiteira somente pode ser viabilizada por meio da criação dos animais em rebanhos, sejam ele confinados, semi-confinados ou em criação extensiva. Porém, temos que criá-los em número suficiente para que haja produção. Aí começam os problemas. Ao aumentarmos a densidade animal, aumentamos também os riscos sanitários. Ou seja, aumentamos a probabilidade de que microrganismos patogênicos para os animais, ou mesmo para o homem (zoonoses), possam ser transmitidos devido a maior densidade populacional. Porém, esse é um risco que obrigatoriamente temos que correr, pois sem o mesmo não há produção. O importante é que saibamos dos riscos e, com isso, possamos adotar medidas para diminuir (mitigar) os mesmos. E essa é a nossa função como produtores ou como profissionais com atuação em saúde animal. Uma gama de diferentes tipos de instalações pode ser encontrada na atividade da pecuária leiteira. Embora esse não seja o foco do artigo, temos que ter em mente que algumas estruturas físicas facilitam a disseminação de doenças por proporcionar maior contato entre os animais; outras dificultam processos de limpeza e desinfecção que reduziriam a contaminação ambiental; outras proporcionam desconforto aos animais que, em situações de estresse, diminuem a produtividade e, principalmente, o potencial de resposta imune contra as infecções. Em termos de manejo zootécnico a inter-relação com saúde animal se manifesta de várias formas no dia-a-dia das fazendas leiteiras. Bezerras criadas em ambiente coletivo, com animais de diferentes faixas etárias, são muito mais susceptíveis a uma série de infecções (entéricas, respiratórias, entre outras) do que aquelas manejadas individualmente. Novilhas manejadas inadequadamente atrasam consideravelmente, por vários motivos, a idade ao primeiro parto e, consequentemente, à primeira lactação. Ainda com relação ao binômio "manejo x saúde", talvez o aspecto mais importante seja aquele relacionado ao manejo nutricional dos animais. Saúde e nutrição andam juntas. Apesar de quase sempre termos o hábito de relacionar os aspectos nutricionais com a produção leiteira e/ou com a reprodução de nossa novilha ou vaca, a nutrição está intrinsecamente relacionada com a saúde animal. Esse campo é vastíssimo em exemplos práticos, mas com relação ao binômio "nutrição x saúde", para nos atermos no tema principal desse artigo, teremos que nos concentrar apenas no potencial de resposta imunológica contra as infecções. Não há produção sem saúde animal e, consequentemente, a falta de saúde implica em menor produtividade animal. Com isso, o nosso dever é promover a saúde. Na promoção da sanidade animal estamos buscando diminuir os riscos da ocorrência de doenças nos rebanhos. Para isso, temos uma série de ferramentas, muitas das quais já resumidamente comentadas anteriormente como: i) conhecer os riscos que o melhoramento genético, realizado com o objetivo de aumentar a produtividade, pode acarretar com a redução da rusticidade animal; ii) proporcionar instalações adequadas onde os riscos de contaminação ambiental possam ser melhor controlados; iii) proporcionar bem-estar aos animais; iv) praticar manejo adequado e específico para cada fase da criação; v) oferecer alimento de qualidade em quantidade adequada; dentre outros. Com essas condutas, estamos diminuindo os riscos sanitários para os rebanhos leiteiros e proporcionando condições ideais para que os animais possam responder prontamente a um desafio. Os comentários anteriores foram realizados, porque é prática comum no campo, ao falarmos sobre uma doença qualquer, para a qual exista uma vacina disponível no mercado, mesmo que inconscientemente, jogarmos toda a responsabilidade no controle da doença para a vacina. Afinal, vacinamos os animais e, com isso, a vacina tem que resolver o problema. Porém, não podemos nunca esquecer que vacinar não é sinônimo de imunizar. Para que os animais de um rebanho estejam protegidos contra uma infecção eles precisam desenvolver uma resposta imune. Essa resposta tem que ocorrer num determinado tempo (ideal e/ou ótimo) e com magnitude suficiente para que, na hipótese de risco, os animais possam eliminar o agente infeccioso específico o mais rápido possível. Porém, para desenvolver a resposta imune o animal tem que estar apto para tal. Animais com deficiências (quantitativas e/ou qualitativas) nutricionais não respondem adequadamente às vacinas, ou seja, não têm capacidade de desenvolver resposta imunológica com intensidade suficiente para resistir a um desafio infeccioso. O mesmo acontece naqueles animais com infecções (bacterianas, parasitárias, virais) intercorrentes; animais submetidos a um desafio muito grande em virtude da contaminação ambiental; animais com níveis de cortisol sanguíneo elevado por um período de tempo relativamente longo em virtude de más condições ambientais e/ou da falta de condições de bem-estar (estresse); animais com infecções imunodepressoras. As doenças, tanto na pecuária leiteira quanto em qualquer outro sistema de produção animal, são de apresentação muito diversificada. Quase sempre relacionamos doenças com um sinal clínico, porém isso não é regra, ou seja, nem sempre acontece. Existe uma gama de formas de apresentação clínica das infecções nos animais de um rebanho. Em um manejo sanitário que inclui um Programa de Vacinação, o conhecimento das formas de apresentação clínica das doenças é importante para definirmos os protocolos mais adequados para o uso de vacinas específicas, em momentos específicos e em categoria animal específica. Nesse artigo, somente serão citadas as possíveis formas de apresentação das doenças que deverão ser discorridas nos artigos subsequentes. Particularmente em rebanhos bovinos leiteiros as infecções podem apresentar-se, mais classicamente, de forma: i) Sintomática ou Assintomática. Na forma sintomática, como o próprio nome diz, os animais apresentam algum tipo de sinal clínico (sintoma) que é facilmente identificado pelo produtor ou pelo tratador. Apesar de ser a forma de apresentação que mais preocupa, afinal os animais estão como alguma alteração clínica, esse tipo de infecção é o de mais fácil diagnóstico, pois a própria forma de manifestação clínica indica que algo está errado e, nessa situação, com frequência, o proprietário procura rapidamente auxílio de um profissional especializado (Médico Veterinário). Já nas infecções assintomáticas, não há manifestação de sinal clínico, pelo menos aparente. Com isso, esse tipo de infecção pode passar completamente despercebido no rebanho, ou seja, elas são silenciosas ou estão camufladas. No geral, as infecções assintomáticas comprometem índices ou taxas utilizadas para avaliar a produção dos rebanhos. Naqueles rebanhos onde esses índices de produtividade não são avaliados cotidianamente as infecções assintomáticas, com frequência, não são diagnosticadas. Com isso, geralmente, esse tipo de infecção tende a se difundir no rebanho. ii) Localizadas ou Sistêmicas. Nas infecções localizadas, os animais apresentam sinal clínico que caracteriza um distúrbio em um aparelho ou sistema específico, como o digestório (diarreia); respiratório (pneumonia); reprodutivo (mortalidade embrionária e/ou fetal); mamário (mastites clínicas / subclínicas); locomotor (problemas de casco); sistema nervoso, dentre outros. Nas infecções sistêmicas o microrganismo patogênico, além de um órgão específico, também tem a capacidade infectar outros órgãos por meio da circulação sanguínea. Ou seja, o microrganismo invasor tem capacidade de fazer viremia, bacteremia, septicemia ou parasitemia, conforme a classe de microrganismo e, com isso, comprometer também órgãos distantes do foco inicial de infecção. A manifestação clínica do animal não fica restrita a um sistema, mas a dois, três ou vários deles. iii) Epidêmicas ou Endêmicas. As infecções epidêmicas ocorrem na forma de foco ou de surto, no qual vários animais apresentam sinais clínicos específicos num curto período de tempo. Em geral, elas são sintomáticas e, com isso, mais fácil de serem identificadas. Na forma endêmica, a infecção caracteriza-se por comprometer vários animais do rebanho ou de uma categoria (bezerras, novilhas, vacas). A forma endêmica pode ser sintomática (brucelose, tuberculose) ou, mais frequentemente, assintomática (IBR, BVD, Leptospirose, Campilobacteriose, Tricomonose, Neosporose), contribuindo com redução nos índices e/ou taxas de produção/reprodução. Para identificação da forma endêmica é fundamental lançar mão de técnicas de diagnóstico laboratorial. Outras formas de infecções podem ocorrer, com menor frequência, em rebanhos bovinos. Entretanto, por sua baixa frequência, como por exemplo, algumas infecções imunodepressoras, não serão comentadas. Imunidade Quando falamos em vacina, pensamos em proteção, e quando pensamos em proteção, nos vem à mente a imunidade. Para a maioria dos leigos no tema, a imunidade é alcançada por meio de anticorpos. Porém, imunidade é um tema extremamente complexo que não é escopo desse artigo esmiuçá-lo. Serão abordadas apenas algumas definições básicas para que esse e os outros artigos da série possam ser melhor compreendidos. Existem vários tipos de imunidade, porém iremos nos concentrar basicamente naqueles tipos que podem ser modulados por vacinas. Tipos de imunidade Imunidade Inata A imunidade inata ou natural, como o próprio nome diz, já está presente desde o nascimento dos animais. Ela é completamente inespecífica e não é modulada por infecções recorrentes. Ela está presente mesmo antes de qualquer infecção e é composta por estruturas, células e moléculas, que formam barreiras com ação sistêmica ou localizada, e que têm por função proteger o organismo de forma inespecífica, ou seja, independente do tipo de microrganismo invasor. São exemplos de imunidade inata: i) integridade da pele; ii) pH estomacal; iii) microbiota genital e intestinal; iv) lágrima; v) epitélio ciliado, secreções (muco), afunilamento das estruturas anatômicas como o de trato respiratório superior; vi) reflexo da tosse; vii) células como neutrófilos, macrófagos e monócitos; viii) moléculas como fibrinogênio, proteínas de fase aguda, proteínas do complemento. Em geral, a imunidade inata não pode ser modulada. Ou seja, não conseguimos interferir (manejo sanitário) com o objetivo de aumentar esse tipo de imunidade. A imunidade inata está presente desde o nascimento do animal, ou seja, faz parte do indivíduo, porém pode ser significativamente afetada por influências hereditárias, nutricionais e ambientais. Com isso, apesar de não podermos utilizar o recurso vacinal para modulá-la, podemos sim, por meio do manejo e nutrição adequados, contribuir com a sua eficiência, ou mais frequentemente, não prejudicar (atrapalhar) a mesma. Imunidade Adquirida A imunidade adquirida pode ser passiva ou ativa. A Imunidade passiva é aquela que o animal já recebe pronta. Os exemplos mais clássicos de imunidade passiva é a imunidade colostral, na qual os bezerros, por meio da ingestão do colostro, adquirem (passivamente) anticorpos provenientes das mães; e a imunidade passiva que é obtida por meio da administração de soros hiperimunes, como o soro antiofídico, soro antitetânico, pelos quais os animais recebem anticorpos pré-formados contra um determinado veneno ou toxina, respectivamente. A imunidade adquirida ativa é aquela na qual o animal precisa primeiro ser apresentado a um microrganismo para que, posteriormente, o reconheça como invasor e, com isso, desenvolva, ele próprio, uma resposta imune contra o agente. Essa exposição do organismo animal a um antígeno constituinte de um microrganismo pode ser natural, decorrente de uma infecção, ou artificial, decorrente de uma vacinação. Fazem parte da constituição dos microrganismos patogênicos, além de outras estruturas, os antígenos que, quimicamente, nada mais são do que proteínas e/ou glicoproteínas presentes em sua superfície e, em algumas situações, também em estruturas internas. Os antígenos são reconhecidos pelo organismo animal como moléculas estranhas. Contra moléculas estranhas, o sistema imune tem a capacidade de desenvolver uma resposta imunológica, que constitui a imunidade adquirida. Na dependência do tipo de antígeno infectante, a imunidade adquirida por ser classificada também em imunidade humoral ou imunidade celular. Ambos os tipos de imunidade são bastante complexos, sendo constituídos por diferentes tipos de células e moléculas (anticorpos e interleucinas). Porém, nesse artigo somente iremos nos deter nos componentes efetores da imunidade adquirida humoral e celular. Na imunidade humoral, a molécula efetora mais importante é o anticorpo, e na imunidade celular, como o próprio nome diz, é uma célula, o Linfócito T Citotóxico. Antígenos distintos induzem diferentes tipos de imunidade adquirida. Em geral, os antígenos não replicantes, como as toxinas (venenos) e microrganismos, mesmo patogênicos, mortos ou inativados (que não se replicam no organismo do animal), induzem resposta imune humoral. Já os antígenos constituintes de microrganismos vivos, como vírus, bactérias e parasitas, que conseguem se multiplicar no organismo do animal, e por isso são denominados antígenos replicantes, induzem tanto a imunidade humoral quanto, principalmente, a imunidade celular. Esses conceitos serão fundamentais para que possamos compreender o mecanismo de ação das vacinas inativadas (mortas) e das vacinas atenuadas (vivas) que deverão ser muito explorados nos artigos posteriores dessa série. Para o controle de algumas doenças que afligem os rebanhos bovinos, o estímulo da imunidade adquirida humoral é suficiente. Já para outras infecções, será necessário estimularmos a imunidade adquirida mediada por células (imunidade celular). Quando pensamos em vacinas, em outras palavras, podemos dizer que algumas doenças podem ser controladas por vacinas inativadas (mortas), pois a principal forma de controle é por meio do aumento do título de anticorpos circulantes. Entretanto, o controle eficaz de algumas doenças específicas, somente pode ser conseguido por meio de vacinas atenuadas (vivas), constituídas por antígenos replicantes, pois a imunidade mais eficaz, nessa situação, será a celular. Sem dúvida, a seleção de um ou outro tipo de vacina deve ficar a critério de um profissional habilitado para isso, ou seja, o Médico Veterinário, que irá selecionar o tipo de vacina ideal a ser incluído noPrograma Imunoprofilático de cada rebanho. Esse artigo foi publicado na Revista Leite Integral, mais um produto AgriPoint. Programas de Vacinação Os rebanhos bovinos brasileiros, inseridos na cadeia produtiva do leite, estão distribuídos em diferentes regiões, que caracterizam-se por clima, geografia e condições sócio, econômicas e culturais extremamente heterogêneos. Mesmo ao analisarmos apenas uma região geográfica, vamos observar que as formas de manejo e nutrição, as instalações e o perfil sanitário divergem enormemente entre os rebanhos. Com isso, o grau de estresse, os padrões de resistência a doenças, o potencial de exposição aos patógenos, os riscos e desafios sanitários (rebanhos abertos x rebanhos semi-abertos x rebanhos fechados) são variáveis e únicos para cada rebanho. Essas características, completamente distintas entre os rebanhos, fazem com que não seja possível o estabelecimento de um Programa de Vacinação único, que se ajuste a todos os diferentes tipos de rebanhos leiteiros. Ou seja, não há como elaborar um Programa de Vacinação que seja capaz de se adaptar, e que possa ser utilizado universalmente, frente às distintas condições características de cada rebanho. Com isso, Programas de Vacinação não podem ser vistos como receitas de bolo. Um determinado programa pode ser excelente quando aplicado em um rebanho, e um completo desastre quando extrapolado para outro em condições distintas. Infelizmente, os microrganismos patogênicos não se distribuem de maneira uniforme entre todos os rebanhos. Em outras palavras, a epidemiologia de cada doença infecciosa apresenta características distintas entre os sistemas de produção. Para que se alcance o sucesso desejado, antes de elaborar um Programa de Vacinação para um determinado rebanho, o profissional da área de saúde animal deve conhecer: i) a epidemiologia das infecções no rebanho para o qual o programa está sendo elaborado; ii) a genética dos animais; iii) o tipo de manejo; iv) a nutrição; v) o tipo de instalações; vi) os métodos utilizados na reprodução; vii) as formas de reposição de animais (rebanho aberto x rebanho fechado); viii) a categoria animal para a qual o programa está sendo proposto; dentre outras características que podem ser específicas para cada rebanho em particular. Somente com a análise do conjunto dessas informações é que poderemos definir: Por que vacinar? Com que vacinar? Quando vacinar? Como vacinar? Pelos comentários anteriores, fica claro que o sucesso de um Programa de Vacinação em rebanhos leiteiros está condicionado a vários fatores intrínsecos de cada propriedade, que devem ser avaliados individualmente. Também não podemos considerar um Programa de Vacinação estático. Com a evolução do rebanho e das práticas de manejo, o Programa de Vacinação deve ser dinâmico o suficiente para se adaptar às novas condições de criação. Ou seja, ele pode e deve ser modificado de acordo com as alterações que ocorram dentro do rebanho ao longo do tempo. Mesmo considerando todos os aspectos já discutidos, temos que ter em mente que nenhuma vacina, nem as de uso humano, tem capacidade de proporcionar imunidade em 100% dos animais do rebanho. Em uma vacinação bem conduzida, espera-se que a grande maioria dos animais responda adequadamente por meio da elaboração de uma resposta imune suficiente para a proteção frente a um desafio de campo. Entretanto, como o potencial de resposta imunológica não é homogêneo para todos os animais, alguns poderão responder com títulos superiores à média, enquanto que outros poderão não responder ou responder em títulos abaixo do esperado. Essa heterogeneidade na resposta imunológica é característica quando avaliamos a resposta vacinal de animais constituintes de diferentes rebanhos. Só para diferenciarmos, em medicina humana, que avaliamos o indivíduo, ou mesmo em medicina veterinária de animais de companhia (cão, gato) ou esporte, como os equinos, a análise da eficiência de uma vacinação é individual, ou seja, avalia-se a resposta imune do indivíduo. Porém, em medicina de produção temos que considerar o grau de proteção coletivo do rebanho como um todo, e não especificamente de um indivíduo. Mesmo conhecendo todos esses aspectos relacionados à imunidade coletiva, o nosso objetivo ao estabelecer um Programa de Vacinação é obtermos uma resposta imune o mais homogênea possível. Ou seja, que a expressiva maioria dos animais responda adequadamente, e que a proporção de animais com baixo título de resposta imune seja a menor possível. Nesse intuito, vários tópicos de extrema importância já foram abordados. Com isso, tanto produtores quanto, principalmente, os Médicos Veterinários, podem e devem atuar com o objetivo de potencializar a resposta imune dos rebanhos, providenciando manejo, nutrição e ambiente adequados. Entretanto, alguns aspectos relativos ao animal, à vacina e à vacinação podem fazer com que a heterogeneidade de resposta imune dos animais aumente ainda mais do que o esperado. Conhecer esses aspectos é importante no sentido de tornarmos a resposta imune mais homogênea, para aumentarmos a eficiência da vacina e, consequentemente, reduzirmos as falhas vacinais. Alguns aspectos relacionados às falhas vacinais Fatores associados ao animal 1) Idade Animais muito jovens são considerados imaturos imunologicamente, ou seja, o potencial de resposta imune ainda é muito baixo. Esses animais podem ainda ser considerados imunodeficientes, não apresentando potencial de resposta às vacinas. Animais muito velhos apresentam várias deficiências em sua capacidade imunológica e também não respondem adequadamente às vacinas. Animais jovens, com até um, dois, ou mesmo até mais meses de vida (a idade depende do antígeno), que receberam colostro em quantidade e qualidade adequadas, possuem anticorpos passivos adquiridos de suas mães. Altos títulos de anticorpos passivos são fundamentais para a proteção contra as principais infecções que ocorrem no período neonatal. Porém, esses anticorpos passivos, por neutralizarem os antígenos vacinais, impedem que os animais possam desenvolver a sua própria resposta imune ativa, sendo responsáveis, quando vacinados, por falhas de vacinação. 2) Variação biológica Alguns animais, devido às características hereditárias, respondem menos do que a população normal, tanto nos casos da apresentação do antígeno ocorrer por infecção natural, quanto por meio de vacinação. Mesmo sendo vacinados, esses animais não serão imunizados. 3) Nível nutricional Toda a resposta imune, seja humoral ou celular, depende fundamentalmente de síntese proteica e de divisão celular, em níveis exponenciais. Para isso, os animais gastam energia e nutrientes em abundância. Consequentemente, animais com algum tipo de deficiência nutricional respondem muito pobremente às vacinas. Essa constatação científica dá voz ao jargão popular que diz "vacinar animais com fome é o mesmo que rasgar dinheiro". Primeiro, temos que providenciar nutrição adequada para que, depois, o animal possa apresentar uma resposta imune também adequada. Ainda com relação ao aspecto nutricional, particularmente na pecuária leiteira, temos que atentar para uma situação muito especial. Em geral, os bovinos leiteiros recebem suplementação alimentar constituída por feno ou silagem. Não vamos discutir a qualidade nutricional desses alimentos. Porém, como são alimentos estocados, temos que lembrar que os mesmos podem ser contaminados por fungos micotoxigênicos. A grande maioria das micotoxinas predominantes em silagens e fenos é potencialmente imunodepressora. Cada micotoxina tem o seu mecanismo de ação e seu efeito deletério próprio ou característico na saúde animal. Porém, secundariamente, todas comprometem em maior ou menor intensidade o sistema imune do animal. O potencial de resposta imunológica dos animais será diretamente comprometido na dependência da concentração da toxina no alimento e do tempo que o animal está recebendo esse alimento contaminado. Com isso, a resposta às vacinas pode estar diminuída ou mesmo suprimida em casos mais graves. Avaliar os níveis de micotoxinas na ração é uma forma de prevenir falhas vacinais, assim como o uso de silagem e feno livres de micotoxinas é um meio de potencializar as respostas vacinais. 4) Interferência de infecções concomitantes Algumas infecções, quando já presentes no animal por ocasião da vacinação, podem comprometer a resposta imune. Esse tema também deverá ser melhor explorado nos artigos subsequentes dessa série "Vacinas e Vacinações na Pecuária Leiteira". 5) Stress Todo o tipo de condição estressante, que comprometa o bem-estar animal, pode induzir a produção de hormônios e desequilíbrios químicos que suprimem o sistema imune e, consequentemente, o seu potencial de resposta às vacinas. Um dos exemplos mais clássicos são os altos níveis de cortisol que podem ser identificados em animais mal manejados, criados em instalações inadequadas, em condições de calor e/ou frio excessivos, e em animais com dor ou desconforto (problemas de casco). Em resumo, condições estressantes de qualquer natureza e falhas vacinais caminham juntas. Fatores associados ao antígeno 1) Diversidade de sorotipos O sistema imune, tanto com relação à resposta imune humoral, quanto celular, é extremamente específico. Alguns microrganismos apresentam mutações (alteração no acido nucleico: DNA ou RNA) que podem ser responsáveis por alterações na constituição dos determinantes antigênicos presentes em sua superfície. Essas alterações podem se expressar na diversidade de distintos sorotipos encontrados em alguns microrganismos. Em algumas situações, o sorotipo de determinado microrganismo presente no rebanho não necessariamente é o mesmo sorotipo do mesmo microrganismo presente na vacina. Essas mutações e diversidades antigênicas, expressas nos diferentes sorotipos de microrganismos patogênicos, são grandes responsáveis por falhas vacinais. 2) Potência e Pureza Toda vacina, inativada (morta) ou atenuada (viva), deve ter uma massa antigênica suficientemente adequada para estimular o sistema imune. A pureza de uma vacina é importante para a preservação dos determinantes antigênicos íntegros, evitando a sua destruição, principalmente por reações enzimáticas. A pureza também evita efeitos colaterais adversos, como reações alérgicas (locais / sistêmicas), e a formação de abscessos no local da aplicação. A pureza da vacina também refere-se à ausência de contaminação com outro microrganismo qualquer, que podem ser responsável pela introdução de uma nova doença no rebanho. Com relação às vacinas controladas por órgãos oficiais, tanto a potência, quanto a pureza dos imunógenos são controladas e, somente partidas aprovadas, são liberadas. Entretanto, com relação às vacinas não controladas oficialmente, devem ser consideradas, no momento da aquisição do produto, referências quanto à idoneidade, responsabilidade, profissionalismo, dentre outros atributos do laboratório produtor das mesmas. 3) Prazo de validade Vacinas com prazo de validade vencido podem não conter todas as propriedades antigênicas do produto original. Nessa situação, pode estar alterada a massa antigênica, que é a quantidade mínima de antígeno para induzir resposta imune. Paralelamente, por meio de reações químicas proteolíticas, alguns antígenos podem ser destruídos, alterando importantes características antigênicas do microrganismo presente na vacina. Ambas as situações são responsáveis por falhas vacinais. Na prática, essa é uma economia que sai caro. 4) Limitações da vacina Todas as vacinas têm limitações. Essas limitações variam de acordo com o microrganismo constituinte ou com a forma e/ou procedimentos utilizados para a fabricação das mesmas. Alguns antígenos são imunogenicamente fracos e, com isso, as vacinas, ocasionalmente, não induzem imunidade suficiente para a proteção adequada contra a infecção e/ou doença. A aplicação de doses repetidas (boosters vacinal) pode ser, em algumas situações, uma forma de tentar contornar essa limitação. Quando possível, os laboratórios produtores procuram reduzir esse problema por meio do uso de adjuvantes imunológicos. Adjuvantes são produtos químicos que têm o potencial de, inespecificamente, aumentarem a resposta imune, e quando mesclados a um determinado antígeno, aumentam a sua imunogenicidade, ou seja, o seu potencial de induzir resposta imune. Fatores associados ao manuseio da vacina 1) Manipulação Toda vacina deve ser estocada e manipulada de acordo com os procedimentos estipulados pelo fabricante. Exposição à luz solar, produtos químicos, variações de temperatura, e temperaturas adversas, podem reduzir ou mesmo eliminar completamente a eficiência da vacina. Vacinas que necessitam ser diluídas, ou mesmo misturadas (fração aquosa/fração sólida), devem ser utilizadas imediatamente após a diluição/mistura. Sobras de vacinas não devem ser guardadas, mesmo que em temperatura adequada, para uso posterior. Sempre que possível, somente utilizar seringas e agulhas descartáveis. Quando utilizar pistolas, atentar para a correta lavagem e esterilização, bem como certificar-se da ausência de resíduos de desinfetantes, que podem destruir os antígenos vacinais. Para as vacinas inativadas associadas a adjuvantes imunológicos, a completa emulsão antígeno x adjuvante é fundamental para o sucesso da vacina. Variações bruscas de temperatura quebram essa emulsão e também são responsáveis por falhas vacinais. 2) Via de administração Atentar para a recomendação do fabricante. Os laboratórios produtores de vacinas fazem testes exaustivos para definir qual a via de aplicação que proporciona a melhor resposta imune. Vacinas de uso intramuscular não devem ser utilizadas pela via subcutânea e vice-versa. Observar também o comprimento e diâmetro adequados da agulha para as diferentes vias de aplicação (intramuscular x subcutânea) e o rótulo ou a bula do produto que indica o local mais indicado para a mesma. Considerações finais Esse artigo foi delineado com o objetivo de apresentar aos leitores alguns aspectos que podem ser responsáveis pelo sucesso ou por falhas em Programas de Vacinação. Evitou-se abordar vacinas, infecções e/ou doenças específicas e de maior frequência de ocorrência na pecuária bovina leiteira brasileira. Na realidade, foi objetivo principal mostrar a complexidade do tema que é envolto por uma gama de variáveis. Para isso, foram abordados, mesmo que superficialmente, alguns conceitos básicos de imunologia, de formas de apresentação de doenças infecciosas e de vacinologia, sempre tendo como norte o aumento da eficiência das vacinas utilizadas na pecuária bovina leiteira. Nos artigos subsequentes, o leitor terá a oportunidade de entrar em contato com temas mais práticos e, com isso, talvez mais conhecidos em seu dia-a-dia de trabalho. Como sugestão final, se fosse para reduzir esse artigo em uma só frase que pudesse representar tudo aquilo que foi abordado e, principalmente, que representasse a síntese de nosso objetivo principal para reflexão posterior, sem dúvida, eu selecionaria a seguinte: "VACINAR NÃO É SINÔNIMO DE IMUNIZAR". Esse artigo foi publicado na Revista Leite Integral.